Esta semana fomos bafejados pela concretização de uma decisão política (e não técnica ou hierárquica da PSP) de reforçar as Polícias Municipais de Lisboa e Porto, indo (finalmente) ao encontro dos anseios do presidente Carlos Moedas, e mais recentemente do presidente Pedro Duarte.Será então que isto faz algum sentido? Ou aliás, que isto faça sentido num momento em que conjuntura da PSP espelha um quadro deficitário e envelhecido de recursos, que até obrigou, a título de exemplo, a ser reforçada pela GNR na operação de fronteiras no aeroporto de Lisboa? Então, mas há Polícias, nem que seja à força, para ingressarem nas Polícias Municipais que têm competências limitadas na segurança pública (diríamos até meramente complementares tendo em conta a sua natureza de polícia administrativa de poderes específicos, i.e., os que decorrem tout court das competências municipais), e não há para reforçar o aeroporto, o policiamento de proximidade, a prevenção criminal, e tantas outras (muitas) competências que as Forças de Segurança, em particular a PSP, têm no domínio da Segurança Interna?Como é que se irá explicar, em particular às mais de 5 milhões de pessoas que vivem nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, que o Governo decidiu priorizar as Polícias Municipais, que não têm sequer inscrição na Lei de Segurança Interna, esventrando mais um pouco a capacidade altamente limitada dos Comandos da PSP de Lisboa e Porto que, na última década, perderam mais de 1000 e 500 Polícias respetivamente nas suas fileiras (não se podendo esquecer que neste entremeio ampliou, de sobremaneira, as suas competências, designadamente com os aeroportos), vendo agora mais quase 200 polícias (100 em Lisboa e 74 no Porto) a migrar para as Polícias Municipais desses dois municípios?Mas não me percebam mal, as Polícias Municipais, sejam elas quais forem, têm um papel importante naquilo que é a exequibilidade e eficácia dos municípios nas matérias e competências que lhe estão adstritas, mas não nos desenganemos ao dizer que não havendo abundância para guarnecer umas e outras, a PSP, e em particular os dois maiores Comandos de Polícias do país, teriam que ser sempre prioritários. Mas não, este Governo preferiu ser parcimonioso e ceder às pressões [legítimas] dos autarcas, abrindo mais uma ferida no gigante cada vez mais esquelético que é a PSP, que já mal consegue andar, i.e., consegue responder com um mínimo de capacidade às necessidades securitárias cada vez maiores destas duas áreas, cada vez mais povoadas, cada vez mais visadas por fenómenos criminais violentos, cada vez mais exigentes do ponto de vista social.Foi esta a resposta que o Governo deu, consciente de que os Polícias da PSP estão exaustos, têm cada vez menos tempo para descansar, e estão por um fio no que toca à sua capacidade para tolerar tantas adversidades e exigências, quando o Governo, o que tem para lhe dar, é mais trabalho. É bem verdade que muitos polícias verão uma oportunidade de ouro nestas vagas para as Polícias Municipais já que terão acesso a melhores condições de trabalho (fruto de uma gestão financeira mais ágil dos municípios), com menos exigência e risco e, pasme-se, a auferir mais pois terão acesso a um suplemento especial de serviço suportado pela câmara que chega próximo dos 300€. Se isto não espelha uma realidade virada ao contrário, então não sei. O Governo decidiu então assumir de forma clara quais são as suas prioridades, e não se venha dizer que é a Segurança Pública, pois essa será suportada, ainda com maior esforço, pelos quadros arruinados dos Comandos de Polícia de Lisboa e Porto. É caso para dizer, lançando mão de um artigo recente do Correio da Manhã que dava conta de quase 1500 candidatos excluídos do acesso ao Curso de Formação de Agentes por questões meramente administrativas – falta de pagamento das taxas de acesso e falta de documentos obrigatórios -, que a mensagem que o Governo quis passar para fora não é a de valorizar a PSP, mas sim afastá-la [ainda mais] dos poucos potenciais candidatos que pudessem olhar para esta carreira com futuro.Mais uma vez vence a vocalidade e não o argumento. Isto não é gerir, e muito menos priorizar, e quem perde, não tenhamos dúvidas, são as pessoas que terão que esperar ainda mais tempo pela resposta da PSP quando estiverem em perigo ou a clamar por socorro. Até lá, vai-se a pouco e pouco destruindo a PSP. Será que é isto que o poder político pretende?