Um Presidente, não uma “fonte de Belém”

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Ao abrigo de uma interpretação sui generis dos poderes que a Constituição lhe confere e da autoridade que julgava advir da adoração atoleimada de grande parte da comunicação social e do comentariado pátrio, Marcelo Rebelo de Sousa terá sido, porventura, o Presidente da República mais viciado no espetáculo mediático permanente. A partir do Palácio de Belém, promoveu a selfie a uma forma de reforço positivo à disposição dos portugueses que se conformariam com um chefe de Estado qualquer, desde que não carregasse consigo o cinzentismo do antecessor ou a exigência de quem tinha acabado de sair de S. Bento.

De tronco nu nos areais de norte a sul ou a aviar gelados à colherada, enquanto enfrentava uma humilhação pública infligida por António Costa, Marcelo habituou-nos a um vórtex comunicacional que, além de insustentável e inconsequente, veio a confirmar-se como um instrumento de autodescredibilização. Quando as circunstâncias exigiam recato, não resistiu ao estrelato. Quando foi necessário institucionalismo, resvalou para o popularuchismo. Quando a situação reivindicava coragem e verdade, refugiou-se na intriga e entregou-se à superficialidade.

O Marcelo que poupou Mário Centeno na farsa das declarações de rendimentos da administração da Caixa Geral de Depósitos, que “demitiu” em direto Constança Urbano de Sousa e que transformou em letra-morta a sua declaração sobre o aumento da despesa com a redução do horário de trabalho na Função Pública é, note-se, o mesmo que foi sujeito ao vexame da manutenção de João Galamba no Governo e que sairá de cena reduzido por Luís Montenegro a um ator político merecedor de desconfiança sistemática - o dossiê Ucrânia foi só o exemplo mais recente.

Apesar do ridículo a que tantas vezes se expôs, arrastando-nos com ele e fazendo com que, hoje, aos olhos de muita gente Manuel João Vieira nem seja um candidato assim tão implausível, o Presidente cessante beneficiou, durante uma década, de um olhar embevecido de quem sobrevivia editorial e comercialmente graças à sua perfídia e aos seus recados transformados em parangonas produzidas a pensar nos gabinetes governamentais e nos estúdios de televisão.

Marcelo foi o princípio e o meio, e será também o fim, de um sistema condenado à obsolescência. Por culpa própria. Foi a personificação de um regime encostado à sombra de velhas conveniências, de cumplicidades forjadas em clubes de porta fechada, de favores que cruzavam os meios a que o país real, bruto e áspero, nunca conseguiu aceder. E foi também um intérprete fiel de uma casta incapaz de ler os tempos, semeando manchetes irresponsáveis em cima de atos eleitorais para entreter pascácios e alimentar radicais.

Esta sobranceria involuntária, porque natural e fomentada nos círculos de poderes decrépitos, de quem sempre olhou para os portugueses como instrumentos ao serviço das suas tropelias, fez com que Portugal queira hoje algo que seja a antítese de Marcelo. Em nome e a bem de um módico de sanidade e respeitabilidade para a nossa República. Sob pena de esta se desconchavar de vez.

Embora haja quem prefira preservar um perfil que não tem preservação possível, resta aos portugueses, dentro de uma semana, uma escolha mais simples e mais elevada que qualquer outra: entre um Presidente e uma “fonte de Belém”. Eu não tenho dúvidas.

Consultor de comunicação

Diário de Notícias
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