Um Nobel da Paz bem entregue

Publicado a

O prestígio da Sala Oval enquanto um dos lugares mais poderosos do mundo não a exime de características mundanas, como ter paredes. Há um limite físico ao que pode acomodar. Quando quem a preside é Donald Trump, impõe-se outro limite, mais intransigente: só há espaço para um único ego.

María Corina Machado deu provas de perceber o chão que pisa quando, na quinta-feira, em Washington, ofereceu a sua medalha do Prémio Nobel da Paz ao presidente dos Estados Unidos da América.

A líder da oposição venezuelana tem objectivos claros: iniciar a transição democrática no seu país; e participar nesse processo. Um e outro dependem de Trump, que tutela de facto a Venezuela. As coisas são como são, Trump é como é, e os interesses da Venezuela têm primazia. Ao entregar a medalha a Trump, María Corina Machado albardou o burro à vontade do burro.

A forma como este gesto é interpretado por comentadores e opiniões públicas na Europa não entra nas contas de Machado. A um só tempo, está a aproximar-se do detentor do poder real e a falar para o seu eleitorado na Venezuela, que muito provavelmente entendeu a concessão à vaidade de Trump como um testemunho de abnegação e pragmatismo.

A oposição venezuelana sabe que a Casa Branca e a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos não denotam qualquer preocupação com o restabelecimento da democracia. Estabilidade bastará. Em jargão académico, leadership change e não regime change.

De resto, no dia em que Machado se encontrou com Trump em Washington, o director da CIA foi recebido em Caracas por Delcy Rodríguez, sucessora de Nicolás Maduro, “a mais capitalista dos socialistas” segundo um relatório da intelligence norte-americana, para estreitar os laços de colaboração.

O regime não cairá enquanto Washington encontrar vantagens na manutenção do statu quo. É este o cálculo que Machado deseja influenciar. Apelar ao narcisismo de quem manda é uma via legítima, sobretudo quando o ego é grande e não se dispõe de via alternativa.

O que nos leva às possibilidades de êxito de uma eventual transição. As mudanças de regime através de intervenção militar norte-americana têm sucessos evidentes - Alemanha e Japão - e desastres clamorosos - Afeganistão, Iraque e Líbia. De acordo com fontes da Administração Trump citadas pela imprensa internacional, as lições aprendidas no Iraque inclinaram o presidente a favor de uma abordagem de mínimos na Venezuela.

Para dissipar críticas e previsões catastrofistas, tem-se recordado o caso de Espanha, onde a democracia chegou pela mão de quadros do regime autoritário.

É verdade que, morto o ditador, o país ficou entregue a Carlos Arias Navarro, mais franquista que o próprio Franco. O paralelismo com Delcy Rodriguez é admissível.

Mas havia na Presidência das Cortes um jurista liberal, Torcuato Fernández-Miranda, na Chefia do Estado um Rei que cedo deu sinais de reformismo e ainda uma ala tecnocrata com pouca ou nenhuma lealdade ao ditador, de onde emergiu Adolfo Suárez - respectivamente, o estratega, o maestro e o executor da transição democrática. Mesmo nas Forças Armadas, reduto ultramontano, havia oficiais como o general Gutiérrez Mellado, que percebia que o regime morrera com o caudilho. Nada disto se vê na Venezuela.

Em Espanha verificou-se algo essencial a transições democráticas bem-sucedidas: fracturas nas elites do regime. Em bom rigor, ainda antes da morte de Franco já o Conselho de Ministros estava partido ao meio, com tecnocratas por um lado e imobilistas por outro.

Ora, as lutas de poder internas na Venezuela, por ora escassas, parecem mover-se apenas pela captura das instituições e pelo controlo de esquemas cleptocráticos. Os desacordos sobre a natureza do regime permanecem em parte incerta.

A existirem dissidências, será difícil que se manifestem sem que haja alguma liberalização política, uma espécie de antecâmara da democratização. Disso depende o regresso de direitos, liberdades e garantias. Desse Estado de Direito depende também a vontade dos investidores estrangeiros, imprescindíveis dado o volume colossal de capital necessário para recuperar a economia - só no sector do petróleo estimam-se 180 mil milhões de dólares ao longo de um período de 15 anos.

O Nobel da Paz é, por definição, um prémio político. Se a entrega da medalha contribuir para o início de uma conversa que transforme a actual abordagem de mínimos num caminho ambicioso de democratização e desenvolvimento, então cumpriu a sua função.

Politólogo.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
www.dn.pt