Tunísia - Presidenciais 2024

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Em resumo, o presidente (PR) Kais Saied, candidato à reeleição neste domingo 6, foi eleito em outubro de 2019 e logo em Julho de 2021, fez o que Manuela Ferreira Leite sugerira em tempos, creio que no contexto de um debate/campanha/distrital, “suspender a democracia durante 6 meses, arrumar a casa e depois retomar o caminho”. O PR tunisino fê-lo e do processo resultou, entre muitas “outras cousas”, uma nova Constituição hiperpresidencialista, sem freios nem contrapesos para o PR, desde agosto de 2022.

Os contextos covid e guerra da Ucrânia, mais a condição humana (ambição, inveja, rancor, mais aquele fel verde da bílis), tornaram o “medalha de ouro da Primavera Árabe” numa crescente contradição constitucional, sob liderança de um Constitucionalista que só quer “arrumar a casa”!

Quanto às eleições de domingo, os três candidatos aprovados, PR incluído, são fruto de um braço-de-ferro entre o Tribunal Administrativo (TA) de Tunes e a Instância Superior Independente para as Eleições, no que resultou numa Revisão da Lei Eleitoral, à última da hora, a qual retira ao TA a prerrogativa deste poder arbitrar contenciosos eleitorais. O que estava em causa, foi a validação pelo TA das candidaturas que verdadeiramente dariam luta, Mondher Zenaidi (ex-Ben Ali), Abdellatif Mekki (ex-Ennahda) e Imed Daimi (ex-Moncef Marzouki), o resumo, aliás, das divisões/opções/tendências da sociedade tunisina, entre os saudosistas de Ben Ali, os providenciais islamistas e os “cravos de Abril” que o ex-PR Marzouki levou para Cartago, enquanto primeiro PR da “Tunísia pós-marcelista”. Sem estes candidatos, os outros nem merecem referência. Porquê? Porque Kais Saied já ganhou e com uns bons 70% de abstenção!

O que é que pode fazer basculer o rapport des forces?

A água! O quê? Isso mesmo, a água, a gestão de recursos hídricos!

O PR Saied beneficia de uma guarda pretoriana de 3 mil homens, que não só o protege fisicamente, mas também têm garantido a lealdade das fileiras militares. A atravessar cinco anos de seca, o ministro da Agricultura, Abdelmonem Belati, antigo Inspector-Geral das Forças Armadas, para além de “prestigio fardado”, tem um plano de gestão dos recursos hídricos da “Pequena República dos Professores”, como era conhecida a Tunísia de Bourghiba. Plano esse que tem sido negligenciado pelo PR, que insiste na teoria/justificação dos complots a partir de fora e nos seus inimigos, que sabotam as canalizações!

A falta de água foi sempre a razão primeira para o declínio dos grandes impérios. Talvez o poder da mudança na Tunísia esteja numa torneira de água, tal qual o poder para uma surpreendente e constante estabilidade na Argélia esteja numa torneira de gás!

Bon Courage Chère Tunisie!

www.maghreb-machrek.pt (em reparação)

O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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