Trump e a promoção da fragilização da Europa

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Na National Security Strategy patrocinada pelo Presidente Trump começa-se por sublinhar que a Europa reduziu o seu peso relativo na economia mundial, referindo-se que o PIB da UE não representa mais do que 14% do PIB mundial, o que, aliás, é mentira, já que, em 2024, o PIB agregado europeu representava 18,3% do PIB agregado mundial, enquanto que o Chinês representava 17,45%.

Todavia, não satisfeito com esta análise perfunctória, na linha do discurso de Munique de Vance, o dito documento vai ao ponto de afirmar existir uma “decadência civilizacional” na Europa, “existindo organismos internacionais que minam a liberdade política e a soberania nacional”. Mas, quais são esses organismos europeus que “minam” a liberdade política?

Que seja do conhecimento geral, existe, indiscutivelmente, liberdade política na Europa.

A Comissão Europeia não envia forças militarizadas para Paris ou para Madrid cada vez que há manifestações contra a Sra. Ursula, por esta ou aquela razão.

A extrema direita na Alemanha (AfD), bem como em França (Rassemblement National) chegam a ganhar eleições regionais nos respectivos países e até, na Hungria e na Eslováquia, existem governos que se inspiram na “praxis” política e na suposta ideologia do Sr. Trump.

Não existe liberdade na Europa?

Alguém num Governo de UE tenta substituir um jornalista ou um comediante num canal de TV por criticar a Sra. Ursula?

Alguém na UE procura desrespeitar os tribunais por tomarem decisões contrárias aos interesses dos partidos dominantes, com excepção da Hungria do Sr. Orbán, seguidor confesso do Sr. Trump?

Mais, ainda, o sobredito documento afirma haver censura e que as oposições são reprimidas na Europa, que é algo que se apresenta caricato.

Na National Security Strategy dá-se a entender que a Europa está errada em considerar a Rússia uma ameaça, quando foi a Rússia que invadiu a Ucrânia, tendo, ainda, sido o Sr. Putin a explicar que a Rússia tem “direitos históricos” sobre parte da Europa Central e tendo sido o Sr. Medvedev (Vice-Presidente do Conselho de Segurança da Federação Russa) a ameaçar, mês sim, mês não, com a utilização de armas nucleares.

E o que se afigura curioso é que o sobredito documento vai mesmo ao ponto de dizer que existe uma larga maioria europeia que quer a paz na Ucrânia, dando a entender-se que a dita maioria pretende a paz a qualquer preço (como, aliás, pretende o Sr. Trump), afirmando-se que tal só não acontece por existir uma subversão dos processos democráticos.

Será que alguém, nos EUA, pretende insinuar que o Sr. Trump, que indultou quem pretendia subverter o processo democrático nos próprios EUA, provocando, inclusive, as mortes de agentes da autoridade no Capitólio, considera que existem Governos, democraticamente eleitos na Europa, que estão a subverter a democracia nos países europeus? Nada de mais absurdo!!!

Não satisfeitos os autores do conjunto das afirmações absurdas que produziram, afirmam, ainda, na National Security Strategy que a “América deve encorajar os seus aliados políticos na Europa a promover a influência dos partidos europeus patrióticos”, i.e., a AfD alemã, o Rassemblement National francês, o Partido da Independência do Reino Unido e o VOX espanhol, entre outros, que o mesmo é dizer da extrema direita europeia.

O que seria se a Comissão Europeia afirmasse num documento de Estratégia Política da Europa para as Américas, que se deveria promover contactos privilegiados com o Partido Democrático americano para evitar a decadência dos EUA?

Vai-se mesmo ao ponto de afirmar que “dentro de algumas décadas, um conjunto de Estados da NATO deixará de pertencer a esta organização”, reiterando-se a indispensabilidade de se promover na Europa “a resistência à trajectória actual de diversos países europeus”, tornando-se necessário assegurar “tratamento justo aos trabalhadores e negócios americanos, acabando-se com a percepção de uma NATO que viesse a ser uma aliança expansionista perpétua”.

Na parte final, Putin não diria algo de diferente.

Enfim, a National Security Strategy consiste num documento que pretende determinar uma ruptura com a Europa Democrática, apostando na tomada do poder pela extrema direita e, portanto, na destruição do projecto integracionista europeu, bem como na secundarização da Europa em relação a potências totalitárias, que deveriam passar a ser interlocutoras institucionalizadas - e, nesse sentido, algo privilegiadas- dos EUA, num Novo Mundo tripolar em que os valores e os princípios se apresentariam irrelevantes.

Trata-se do documento da responsabilidade das autoridades americanas mais anti-europeu das últimas décadas, que jamais teria sido subscrito por qualquer um dos últimos 12 presidentes dos EUA, não considerando, naturalmente, o Presidente Trump.

Será que estamos no final de uma Era?

Talvez não.

Mas, é melhor contar com isso, continuando como continua o Sr. Trump na Presidência dos EUA.

Nem mais, nem menos…

Economista e professor universitário

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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