Três imperialismos e uma realidade democrática nos cuidados intensivos

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O que estamos a assistir, actualmente, é a redefinição de novas áreas de influência mundial, basicamente, três coincidentes com a existência de ditaduras e oligarquias que actuam no sentido da obtenção de matérias primas que, futuramente, vão ser necessárias para a continuidade do crescimento económico dos países.

Estados Unidos, China e Rússia, três países com ditaduras de diferentes matizes que tudo fazem para exercerem o seu poder noutros países que, diariamente, vêm a sua soberania ameaçada.

Trump bombardeou a Venezuela, um país soberano, prendeu o seu presidente e mulher, não pela droga mas pelo petróleo e as terras raras que existem naquele país.

A China não se cala com Taiwan porque está lá a tecnologia mais desenvolvida de chips que tão necessários vão ser no futuro. Junta a isso uma componente de discurso político da reunificação da mãe pátria e um mais fácil acesso ao Oceano Pacífico.

Finalmente a Rússia com um projecto de imperialismo territorial nascido na cabeça de um ditador que além de querer as terras raras ucranianas e a riqueza do Donbass, tem a estúpida ambição política da reconstrução do velho império soviético/russo.

No meio destas três entidades ditatoriais temos uma quarta realidade política, consubstanciada num conjunto de países democratas que constituem a União Europeia, que, dia a dia, vai perdendo consistência e relevância e não consegue afirmar-se nas componentes política, económica e tecnológica.

Este é o panorama que temos hoje e é com esta realidade que vamos ter de viver nos próximos anos.

É uma situação grave que nos pode aproximar, perigosamente, da possibilidade de uma terceira guerra mundial.

A legislação internacional que orientava os países deixou de ser respeitada e, portanto, entrámos no campo do “ é fartar vilanagem”, sem regras estabelecidas entre Estados e isso é perigoso para o mundo.

Já sabemos quem é Maduro e naquilo que o chavismo transformou a Venezuela. Em 2016 a Venezuela foi expulsa do Mercosul por violação dos mais elementares direitos humanos. Detenções arbitrárias, assassinatos, submissão do poder judicial e legislativo à ditadura de Maduro, censura da imprensa livre, sete milhões de venezuelanos emigrados, metade da população abaixo dos limites da pobreza. E um salário mínimo de um dólar por mês (130 bolivares). Do lado de Maduro e dos seus apaniguados, uma burguesia enriquecida com uma forte componente militar que negociava com russos, iranianos e turcos, enriquecendo os que assinavam a ficha do Partido Socialista Unificado da Venezuela.

Mas a lógica imperialista de Trump nada tem de ideológico. Nada pode justificar o tipo de acção que foi desencadeado por Trump na Venezuela. O chavismo continuará intacto se a Venezuela aceitar submeter-ser às prioridades de Trump e das petrolíferas norte-americanas. Acresce que o imperialismo norte-americano na personagem de Trump tem também preocupações de estratégia internacional expressas nas ambições sobre a Gronelândia. Para além das riquezas que há a explorar ali, Trump não gosta de ver navios russos e chineses por aquelas bandas.

Se a União Europeia não se impuser, relativamente, na questão da Gronelândia, território sob administração dinamarquesa, país europeu e da NATO, é bem possível que este pedaço gelado da Terra venha a ser a causa de forte diferendos entre norte-americanos, russos e chineses.

Com este panorama e com a atitude de Trump tanto a China como a Rússia ganharam “legitimidade” para futuras incursões em países ou áreas do mundo que sejam apetecíveis em matérias primas.

É, assim, o caso da China em relação a Taiwan. Se Trump entra pela Venezuela dentro sem avisar ninguém e rapta um Presidente, porque não há de a China tentar derrubar o governo de Taiwan? Seja pela força, seja pela pressão política.

E a Rússia! Não terá, igualmente, “legitimidade” para novas aventuras imperialistas para além da que já tem em curso na Ucrânia?

A destruição do direito internacional que geria os países, a falta de respeito pelas fronteiras, internacionalmente, reconhecidas, o rasgar da Carta das Nações Unidas é um perigo para todo o mundo.

A União Europeia tem de encontrar força e imaginação para sair da letargia em que se encontra. A sua reacção no caso Maduro foi uma cacofonia de países europeus, cada um a dizer coisas díspares.

A Europa está sem rumo, sem uma estratégia definida, sem vitalidade tecnológica, sem criatividade económica.

Entalada entre três oligarquias imperialistas, a Europa continua a ser um farol importante dos saudáveis princípios democráticos, do respeito pela vida humana, da defesa da paz no mundo, da liberdade dos cidadãos, em suma da cultura e do diálogo que deve haver entre os povos. Que saia rapidamente dos cuidados intensivos e faça o que tem de ser feito. Para que no Mundo haja algum bom senso e equilíbrio, que parece estar a perder-se todos os dias.

Jornalista

Diário de Notícias
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