Suu Kyi e a nossa Ursula

Tencionava escrever sobre o golpe de estado em Myanmar. Sigo regularmente o que aí se passa, especialmente o papel das associações da sociedade civil na defesa dos cidadãos, os investimentos chineses e o seu impacto político, assim como a ação dos diferentes grupos armados de base étnica. A China, que é o segundo maior investidor estrangeiro no país - o primeiro é Singapura -, partilha com Myanmar uma longa fronteira e vê no seu vizinho sobretudo um corredor económico de acesso mais curto e direto ao golfo de Bengala. Esse corredor tem um interesse estratégico enorme para os chineses, quer para as importações de gás e de petróleo quer para as exportações para o Médio Oriente e África.

As mensagens que iria incluir no meu texto seriam para condenar o golpe militar e defender o processo de democratização iniciado em 2015 e as legislativas de novembro de 2020 - que o Carter Center considerou como aceitáveis, apesar das restrições impostas pela pandemia e pelas rebeliões armadas.

Também procuraria discutir as dúvidas que a atividade política de Aung San Suu Kyi tem levantado nos círculos ocidentais, lembrando ao mesmo tempo que a senhora ganhou as eleições de novembro por larga maioria. A apreciação dos birmanes é muito distinta dos julgamentos que nós, com os nossos olhos europeus, fazemos. Teria mencionado, nesse meu texto, o bloqueio que o Conselho de Segurança da ONU sofre quando se trata desse país. Essa incapacidade de condenar foi claramente demonstrada a partir de 2017, aquando da perseguição e expulsão para o vizinho Bangladesh de quase um milhão de pessoas da etnia rohingya. A objeção vem sempre do mesmo lado, de Beijing, e com Moscovo a fazer o favor político de se alinhar com os chineses, numa manobra tática à espera de dividendos.

Porém, desta vez surpreenderam-me, pela positiva. A China e os outros membros do Conselho de Segurança aprovaram ontem uma declaração que considero forte e que condena explicitamente o golpe militar e a detenção arbitrária de Aung San Suu Kyi e de todos os outros. Foi uma surpresa encorajadora, que inclui um apelo inequívoco ao respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades, nomeadamente a da imprensa. Iria especular que este acordo sobre Myanmar é um bom sinal, que poderá ser visto como um gesto conciliador de Xi Jinping a Joe Biden.

Decidi, contudo, mudar de ideias e focar-me na balbúrdia em que se transformou a campanha de vacinação na União Europeia. Cada dia que passa mostra que a questão das vacinas é altamente política e que os atrasos, fracassos, lentidões e injustiças podem ter um efeito devastador sobre a imagem da Comissão Europeia e a autoridade moral e a estabilidade dos governos nacionais. Fica igualmente claro que a prioridade das prioridades na União Europeia tem de ser a imunização sem demoras do maior número de cidadãos.

Em finais de dezembro, Ursula von der Leyen dizia, com um misto de alegria e arrogância, que a campanha estava lançada em simultâneo em todo o espaço europeu. A Comissão decidiu, e bem, que as encomendas junto das farmacêuticas seriam feitas de modo unificado, para toda a União.

Essa maneira de proceder aumentaria a nossa força negocial perante um setor que é poderosíssimo e experiente na redação de contratos comerciais. Passadas cinco semanas, temos cerca 2,9% da população vacinada na União Europeia, e mais de 14,5% nas terras de Boris Johnson. Ainda, as vacinas encomendadas não aparecem, por não haver capacidade suficiente de produção, de logística e porque as farmacêuticas já tinham outros contratos assinados previamente.

Assim, entramos em fevereiro com a perceção clara de que não há assunto mais explosivo do que este. E com a certeza de que é fundamental transformar a vacinação numa verdadeira campanha, urgente, massiva, eficaz e com critérios justos e aceites pelas populações. Caso contrário, caminharíamos a passos largos para o caos político e social. Muito longe e diferente de Myanmar, obviamente, mas igualmente desestabilizador.


Conselheiro em segurança internacional. Ex-representante especial da ONU

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