Strange Fruit

Strange Fruit é o título de uma canção célebre, escrita pelo poeta e compositor comunista norte-americano Abel Meeropol (1903-1986) que denuncia os linchamentos por enforcamento em árvores de Negros nos Estados Unidos. A canção primeiro na voz de Laura Ducan e depois cantada por Billie Holiday tornou-se um dos emblemas do movimento dos direitos cívicos nos Estados Unidos.

Relembro esta mítica canção a propósito do protesto pacífico mas muito emotivo dos familiares e amigos dos jovens que morreram à guarda do Estado português sem que as famílias fossem informadas atempadamente, sem que as causas das mortes tivessem sido devidamente apuradas por inquéritos independentes.

Um protesto em frente do Estabelecimento Prisional de Lisboa, à chuva que reuniu umas centenas de pessoas no passado sábado, dia 12 de Março. Um protesto que passou desapercebido à generalidade da comunicação social mas que é importante assinalar, pelo drama humano que lhe está subjacente, pelo sofrimento das famílias, pela Justiça tarda.

As pungentes intervenções da Mãe e do Irmão de Danijoy Pontes a todos comoveram pela sua coragem em enfrentar um sistema que os ignora, pela procura incessante de Justiça, pela determinação de manter a memória de Danijoy, pelo exemplo de civismo num país tantas vezes amorfo e sem ânimo.

Os casos de Danijoy Pontes, Miguel Cesteiro e Daniel Rodrigues coincidem no mistério, na ausência de explicações por parte das entidades oficiais, nas suspeitas de maus tratos e de medicamentação forçada. O que é absolutamente certo é que a Polícia Judiciária (PJ) não foi chamada após as mortes como determina a Lei levantando-se a legítima interrogação sobre os motivos desse procedimento.

Os três casos coincidem também na origem social, sendo todos oriundos das classes mais empobrecidas e racializadas - um Negro, outro Cigano e o terceiro branco do grupo que os americanos designam por white trash e que poderíamos designar por branco de segunda.

Os casos sucedem-se e as autoridades parecem paralisadas face a uma força oculta, que não controlam nem querem submeter às leis da República, fechando os olhos ao incumprimento das normas, não chamar de imediato a PJ, por parte das direções prisionais.

Também não se percebe o motivo de recusa de inquéritos independentes que possam apurar a verdade. O que impede uma medida de tão elementar bom senso? Siga-se o bom exemplo da Igreja Católica que constituiu recentemente uma comissão independente para investigar os casos de pedofilia no seu seio.

Segundo o SOS Racismo estes três casos incluem-se nos "mais de 300 mortes nos últimos cinco anos" nas prisões portuguesas. É um número que nos envergonha, que nos humilha e nos revolta. Um número demasiado elevado tendo em conta que se trata, na maioria, de jovens que deviam ser recuperados para a sociedade e que, em vez disso, já estão enterrados. Estes números, por si sós, são motivo de nomeação de comissão independente que investigue a fundo as condições e as práticas nas cadeias portuguesas. Era muito importante que esta comissão incluísse alguns especialistas estrangeiros.

As Famílias merecem Justiça. É preciso apurar com independência as causas destas mortes. É preciso que a Verdade se saiba. Para que acabem estes estranhos frutos nas prisões portuguesas.

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