Será esta a minha última crónica?

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No dia em que escrevo esta crónica, o Diário de Notícias está em greve, numa luta pelo reconhecimento dos direitos de todos os trabalhadores. E eu, mera cronista em regime pro bono, estou em luta também. Não faço greve à crónica e aproveito-a, então, para expressar a minha solidariedade e indignação pela situação de todos aqueles que dedicam a sua vida a dar-nos informação de qualidade e com rigor. Aproveito também o artigo desta semana para falar sobre o impacto das dificuldades financeiras na saúde mental.

Costuma dizer-se que “dinheiro não traz felicidade” e que a “saúde é a maior riqueza”, numa tentativa de sublinhar a importância de outros valores para além do dinheiro, como a saúde, o amor ou a amizade, por exemplo. Mas também sabemos que as dificuldades económicas afetam a nossa saúde, como um todo, e a saúde mental, em particular.

Falamos de um ciclo que pode perpetuar-se no tempo, com a saúde financeira e a saúde mental a influenciarem-se mutuamente.

A existência de problemas financeiros é uma fonte de stresse, ansiedade e preocupação e a pessoa tende a sentir-se emocionalmente sobrecarregada. A instabilidade financeira também abala a confiança pessoal e a sensação de segurança, o que afeta de modo negativo o bem estar emocional. Da mesma forma, as dificuldades financeiras também pioram a recuperação de quem já experiencia problemas prévios ao nível da saúde mental.

Por outro lado, pessoas com elevado stresse, durante longos períodos de tempo, com sintomas de depressão ou ansiedade, sentem também maior dificuldade em gerir as suas finanças, pois o medo e a tensão são intensificados e dificultam o processo de tomada de decisões.

As dificuldades económicas tendem a gerar um conjunto de emoções mais desagradáveis, como o medo, a angústia e a vergonha. Quem vive num clima de incerteza financeira experiencia frequentemente ansiedade e, à medida que o tempo passa, a desesperança começa a instalar-se. Neste contexto, procuram-se estratégias para lidar com o stresse, que nem sempre se revelam adaptativas, podendo surgir problemas associados ao consumo abusivo de álcool ou outras substâncias (como drogas ou medicação prescrita), numa tentativa de anestesiar aquilo que se sente e esquecer os problemas. Paradoxalmente, o refúgio no consumo acaba por tornar-se em mais um problema.

Não podemos esquecer, também, a cascata de mudanças que se sucedem num contexto de instabilidade financeira e que impactam negativamente, não apenas no trabalhador concreto que não recebeu aquilo a que tinha direito, mas também em diversas pessoas em seu redor, nomeadamente, a sua família.

Não existe uma receita simples para lidar com esta situação – para além, claro está, do devido pagamento dos salários a tempo e horas. Algumas estratégias podem, porém, ajudar a gerir estes tempos de maior incerteza financeira. É fundamental começar por aceitar as próprias emoções, sem vergonha das mesmas, tentando pensar na situação sob várias perspetivas. Olhando para o passado, que outros desafios foram já enfrentados com sucesso? Porque temos, muitas vezes, recursos individuais que tendemos a desvalorizar em momentos de crise, tal como recursos sociais - uma rede de apoio que é necessário ativar. Garantir o autocuidado e pedir ajuda são também duas estratégias muito importantes, que nos ajudam a acreditar num futuro melhor.

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