Que imagem vai projetar a Europa na Conferência de Munique?

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A minha crónica de 30 de janeiro sublinhou a importância da conferência de Munique deste ano, olhando à nova realidade da segurança internacional, decorridos que estão 12 meses da Administração Trump. A mensagem principal do meu texto era suficientemente clara: o direito internacional deve dizer não à força bruta!

Agora, com a conferência a começar hoje e a decorrer até domingo, penso ser importante refletir sobre a segurança numa perspetiva europeia. Em Munique, a Europa tem de saber demonstrar que está realmente disposta a resolver e a ultrapassar com feitos concretos a sua fragilidade geopolítica.

Este primeiro ano da Presidência de Donald Trump veio confirmar o que a invasão ilegal, injustificada e em larga escala da Ucrânia em 2022 já havia revelado: a Europa é economicamente poderosa, cultural e normativamente influente, mas estrategicamente fraca. Em matéria de segurança, tem dependido fundamentalmente dos EUA e da sua visão do mundo. Com a chegada de Trump ao poder, a vulnerabilidade e a dependência da Europa, em termos de Defesa, em relação a Washington, tornaram-se mais evidentes.

Neste contexto, a presença de Marco Rubio em Munique, à cabeça de uma enorme e influente delegação americana, ganha um significado particular. Na conferência de 2025, o vice-presidente americano JD Vance ficou para a pequena história ao dizer, entre outras afirmações que nos chocaram, que o compromisso americano com a segurança europeia deixara de ser incondicional. Uma vez isso dito, a posição de Washington já não precisará agora de ser tão perturbante. Rubio representa uma América menos boçal, que não hostiliza dessa forma a Europa. Apenas a considera como um ator geopolítico fragmentado, desorientado, com pouco peso, praticamente insignificante.

O seu discurso não andará muito longe dos seguintes pontos: a responsabilidade da segurança da Europa é, acima de tudo, uma incumbência europeia; os governos europeus devem investir mais em Defesa, tal como se comprometeram na Cimeira da NATO, em junho de 2025; os americanos querem que haja mais clareza estratégica do lado europeu, o que no entendimento dos EUA significaria um alinhamento sem hesitações com as políticas definidas por Washington e um engajamento efetivo na iniciativa de Trump no inefável Conselho de Paz. Rubio não se esquecerá de mencionar que a Aliança Atlântica continuará a existir, enquanto a sua liderança for, no essencial, ditada pelos interesses dos EUA. Irá igualmente explicar o pretenso plano de paz, de inspiração russa, que o presidente americano quer impor à Ucrânia, incluindo o projeto irrealista de realização de eleições presidenciais num país a sofrer uma guerra de agressão dia e noite, e ao som dos tambores e dos mísseis russos.

Na verdade, não creio que Rubio trará de oeste nada de novo. As intervenções dos dirigentes europeus, essas sim, terão de ser escutadas atentamente.

Aí, vejo de forma cada vez mais nítida, discordâncias significativas, em particular entre a França e a Alemanha - divergências que se refletem nas visões contrastantes entre Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen.

Macron insiste, há anos, na necessidade de uma Europa estrategicamente autónoma, capaz de organizar a sua segurança tendo em conta as ameaças prováveis. Essa posição ficou de novo refletida na entrevista que deu esta semana ao jornal Le Monde e a outros grandes jornais europeus. Não diminui a NATO, mas insiste no equilíbrio entre os interesses estratégicos das duas margens do Atlântico. Para Macron, a continuação da dependência em relação a Washington é uma forma disfarçada, mas real, de subordinação. Contrariamente ao que outros pensam, acredito que essa tomada de posição de Macron não visa marcar terreno para vir a substituir António Costa como presidente do Conselho Europeu em junho de 2027. Nessa área, Macron parece não ter grandes hipóteses.

Von der Leyen segue uma abordagem mais institucional e profundamente moldada pelas opções estratégicas alemãs. A sua liderança, mais próxima de Friedrich Merz, tem sido eficaz na obtenção de compromissos no domínio das indústrias de Defesa e no apoio à Ucrânia. Mas a presidente da Comissão Europeia permanece convencida da necessidade da nossa complementaridade com os Estados Unidos. Para Von der Leyen, a autonomia europeia surge mais como reforço do pilar europeu da NATO do que como um projeto político paralelo, com laivos de independência. É uma decisão inspirada na tradição alemã das últimas décadas.

Macron pensa em Charles de Gaulle e reflete uma Europa que deixou de acreditar no respaldo americano. Aposta na unidade entre as principais potências europeias. Já Von der Leyen teme as fraturas que possam surgir em situações de crise. Considera indispensável que haja um ponto de ancoragem exterior às rivalidades europeias. Na realidade, isso poderá significar que reconhece a fragilidade do projeto europeu.

Temo que a Conferência de Munique mostre essas discrepâncias e transmita à delegação chefiada por Rubio uma imagem de fraqueza. E a convicção de que quem manda, de facto, na segurança europeia estaria afinal na Casa Branca. Tal seria trágico para o nosso projeto comunitário. Perante Rubio, e por seu intermédio, Donald Trump, a Europa não pode limitar-se a prometer mais despesas. Tem de demonstrar unidade, capacidade de decisão e força moral num novo velho mundo, agora dominado por potências que deixaram outra vez de dar valor à ética política e ao direito internacional.

Conselheiro em Segurança Internacional.

Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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