A Conferência Anual de Munique sobre a segurança internacional vai decorrer de 13 a 15 de fevereiro. É um acontecimento marcante no debate político global: basta recordar a intervenção fraturante do vice-presidente norte-americano, JD Vance, no encontro do ano passado, para compreender a relevância da reunião.Agora estamos numa fase ainda mais complicada. Como disse há dias em Davos o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, encontramo-nos numa situação de rutura permanente, numa era de “bruta realidade”, onde as grandes potências usam o comércio e a força como armas de coerção. Tem razão, em grande medida. A sua constatação já foi por mim referida em textos recentes.Repito, todavia, que não podemos deixar-nos vencer nem pelo pessimismo, nem pela irracionalidade e a violência dos autocratas. Baixar os braços não é solução. O mundo não está condenado a ser governado por narcisistas, nem por ditadores ou por tresloucados. Mahatma Gandhi terá lembrado que “sempre houve e há tiranos e assassinos e, por algum tempo, até parecem invencíveis, mas, no final, sempre tombam… sempre!”Os discursos que irão ser pronunciados em Munique estão a ser redigidos. Parece-me, por isso, ser o momento de partilhar uma série de ideias sobre temas que me parecem prioritários.Começarei por citar Kofi Annan, com quem trabalhei vários anos: “A nossa missão é colocar o ser humano no centro de tudo o que fazemos. Nenhum muro é suficientemente alto para impedir a entrada dos problemas globais, e nenhum país é suficientemente forte para os resolver sozinho.” Já antes Martin Luther King havia dito que “estamos presos numa teia sem fuga possível”, que nos captura a todos.As mensagens de ambos são fáceis de compreender: ou apostamos na solidariedade entre os povos, ou as nossas sociedades e o planeta, tal como o conhecemos, só podem aproximar-se ainda mais do abismo.Observo com preocupação a apologia da “subordinação útil”, a que alguns chamam realismo político. Esse pretenso realismo a que as grandes potências nos tentam subjugar, e que certos teóricos e alguns líderes defendem, deve ser considerado um anacronismo perigoso. É uma espécie de “guia de sobrevivência” que, sob o disfarce da aceitação da força como o fator determinante nas relações internacionais, propõe o abandono de princípios universais em troca de uma estabilidade ilusória. Essa visão política que nos querem vender parte da estafada e perigosa premissa da aceitação da existência de esferas de influência. Ou seja, inspiram-se nas suseranias e nas vassalagens de outrora, e seriam a melhor maneira de garantir a paz. Tem de haver em Munique quem desmonte esta falácia.A verdadeira força de um Estado não reside apenas no seu arsenal militar. Assenta igualmente na sua legitimidade e na coragem do seu povo. Investir na criação de uma atmosfera de medo é a atividade preferida dos ditadores e dos populistas. Quando os deixamos utilizar essa arma, caminhamos para a perdição. Isso está a acontecer, incluindo entre nós. Está a desenvolver-se um clima de temor na Europa. A paralisia gerada pelo medo é a verdadeira fraqueza de uma nação. É fundamental que se diga em Munique que estamos prontos para vencer o pavor, venha ele donde vier. A audácia, ancorada em valores, é a resposta.A Ucrânia é um exemplo disso. O seu povo sabe-o. A resistência ucraniana é um ato de coragem moral que prova que um povo com um espírito livre é invencível, mesmo quando confrontado com uma filosofia imperial que ainda vê o mundo como se estivéssemos no século XIX. A intervenção de Zelensky em Davos foi um apelo à reflexão, embora tenha sido ofuscada pelo discurso de Carney. Zelensky criticou abertamente a Europa, considerando-a um “caleidoscópio fragmentado de pequenas e médias potências”, hesitante, dependente dos EUA e perdida em discussões internas, enquanto a agressão russa continua e o petróleo de Putin circula livremente ao longo das costas europeias. Propôs que esse petróleo fosse confiscado e os proveitos utilizados para financiar a legítima defesa da Ucrânia, e por consequência, do nosso continente.É verdade que a assistência financeira fornecida à Ucrânia pela UE, desde a invasão ilegal russa de 2022, já ultrapassa os 193 mil milhões de euros, um montante considerável, superior ao norte-americano. Zelensky terá, porém, ido longe demais nas suas palavras. Teve, no entanto, o mérito de sublinhar que sem aguerrida determinação, meios financeiros, incluindo os necessários para adquirir armas, imaginação e firmeza política não será possível enfrentar a violência injustificável da Rússia.Será bom que Zelensky pronuncie um discurso semelhante em Munique, mas que substitua as críticas por propostas. E que a Europa democrática responda mostrando que compreende o perigo que as intenções de Putin - e de outros - representam. A guerra híbrida contra a Europa já está em curso e embora a ameaça maior venha do Leste, é preciso não perder de vista as ameaças provenientes de outros azimutes.Isto lembra-nos que a soberania nacional é um direito inalienável que temos a responsabilidade de proteger. É o que está escrito na Carta das Nações Unidas. Munique deve sublinhá-lo e incluir simultaneamente na agenda a reforma das Nações Unidas. Este é dos temas mais prioritários ao nível internacional. Os países que prezam o primado da lei, da igualdade de direitos entre todos os Estados e da paz, têm aqui uma bandeira mobilizadora. Conselheiro em Segurança Internacional.Ex-secretário-geral-adjunto da ONU