Presidenciais e Europa

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Entre a última candidatura do Chega às legislativas (2025) e a actual candidatura do seu líder à Presidência da República muita coisa mudou, mas um facto emblemático deve ser realçado : os Estados Unidos de Trump oficializaram, entretanto, o seu apoio aos partidos “patrióticos” - em que se inclui a família a que pertence o Chega - actuantes em numerosos países da Europa. Algo mais do que um provocatório discurso de Vance em território alemão.

A actividade anti-europeísta desses partidos, que os torna particularmente valiosos na óptica de Trump e justifica que sejam agora encorajados na estratégia nacional de segurança em aplicação nos EUA, tem diversas modulações, desde as que abertamente visam o “regresso ao Estado-Nação” com desmantelamento das instituições europeias, a outras que, por plano ou dissimulação, admitem apenas “a necessidade do mercado único e dalguns projectos nos domínios industrial e tecnológico”.

É com estas últimas palavras que se exprime agora Jordan Bardella (Ce Que Je Cherche, p.295), o jovem político que já levou o partido de Le Pen a ir acima dos 35 % nas urnas e que pode vir a representá-lo na próxima eleição presidencial francesa : é ele que preside ao grupo político a que pertence o Chega, fundado em 2024 por iniciativa de Viktor Orbán.

Já disseram alguns que o apoio à candidatura agora rejeitada pelos eleitores terá sido o primeiro erro grave da actual liderança do PSD a resultar directamente de uma visão paroquial da vida política. Embora as consequências sejam neste caso bem mais visíveis, esteve no entanto longe de ser a primeira demonstração : na definição dos alinhamentos parlamentares e da própria linha governativa, o actual primeiro-ministro nunca procurou atribuir consequências adequadas às clivagens de fundo em matéria europeia. E a impressão que transmitiu, em vários momentos, foi a de essa matéria se inscrever, para ele, mais na esfera da conveniência do que da estratégia, dispensando coerência e prioridade. Fosse outra a visão e era difícil conceber que o candidato agora excluído pudesse ser visto como o intérprete adequado para o PSD propor aos seus eleitores nestas presidenciais.

É de esperar, agora, que o alto contraste existente no posicionamento europeu e global fique bem evidenciado na campanha para a segunda volta - mas não só. Do anterior ciclo presidencial, e como seu fruto tardio, transitará para o próximo um governo assente em menos de um terço do eleitorado, sem base parlamentar definida e com resultados e sobrevivência regularmente suspensos de erráticas tratações - um governo minoritário, cuja capacidade e autonomia política sairão destas eleições presidenciais, em qualquer caso, mais reduzidas, e a navegar em contexto externo excepcionalmente exigente para a Europa. Com Seguro na Presidência, não é crível que um critério de coerência europeia possa continuar ausente da nossa vida institucional.

Jurista, antigo ministro.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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