Portugal e Espanha têm sensivelmente o mesmo tempo de vivência democrática. Por cá, vamos em 25 Governos Constitucionais. Em Espanha contam-se apenas 15. Houve, portanto, maior instabilidade governativa deste lado da fronteira. Sendo certo que a estabilidade, por si só, não é virtuosa, a sua ausência prejudica o jogo democrático.No essencial, a diferença no número de Executivos entre Portugal e Espanha explica-se com os poderes e com alguma discricionariedade que a Constituição da República Portuguesa oferece ao chefe de Estado. Ao contrário do rei, o Presidente da República é um árbitro com potestade de jogador.De resto, este meio século de democracia na Península Ibérica revela um paradoxo curioso: o Presidente é, com frequência, um factor de instabilidade, porque procura cumprir o seu papel constitucional; já o monarca espanhol apenas introduz instabilidade no sistema político, quando se esquece do papel que a Constituição lhe reserva.Assim, em Portugal, é da maior importância que o chefe de Estado entenda a função moderadora que lhe foi confiada, ou o poder neutro que deve exercer, o que implica demonstrar um módico de sensatez e talante institucional que desaconselhem o uso excessivo dos poderes e da autonomia que a Constituição lhe confere. O legado da última década de Presidência da República torna tudo isto muitíssimo mais premente.Considero as linhas vermelhas, ou cordões sanitários, errados por princípio e perigosos nos efeitos que produzem. Pela parte que me toca, votar em António José Seguro está longe de ser uma medida de confinamento do seu adversário. A escolha a fazer é simples, de meridiana normalidade: qual dos candidatos revela melhores condições e características para desempenhar funções de chefe de Estado? Se os critérios forem a estabilidade, a vinculação aos preceitos constitucionais e a adesão ao carácter liberal do Estado de Direito, Seguro é a escolha possível.Não entusiasmará, reconheço. O que pode ter vantagens: há uns anos, em pleno turbilhão do Brexit, um bom amigo inglês, tory por formação e feitio, disse-me ter saudades dos tempos em que a política era uma coisa aborrecida.A única anomalia destapada por estas eleições resume-se ao estado em que se encontra o conjunto da direita portuguesa, sem liderança, nem projecto. Mas são contas de outro rosário.Tudo o mais é pirotécnica. Por exemplo, tentam convencer-nos de que há apenas duas formas de entender o dia 8 de fevereiro: uns insistem num confronto entre democracia e autoritarismo; outros contrapõem com um combate existencial entre esquerda e direita.São leituras bastante diferentes. Irreconciliáveis até. Mas coincidem no histrionismo e nas patranhas. Muitos dos que hoje perdem o sono com a ameaça da direita radical, populista, identitária, iliberal, com más companhias internacionais não tiveram - nem têm - qualquer pejo em defender alianças com a esquerda radical, populista, identitária, iliberal, com péssimas companhias internacionais.Do outro lado, quem diz reluzir a aura da verdadeira essência da direita revela-se tão revolucionário, moralista e tribal como a esquerda que fustiga. Há uma contradição profunda em vergastar o activismo que luta por impor discurso, pensamento e práticas, e depois perfilhar um activismo em tudo semelhante, apenas porque nasce num campo político que nos é próximo. O puritanismo, dizia Mencken, define-se como o medo obsessivo de que alguém, em algum lugar, possa um dia ser feliz.Outro tanto se pode dizer a respeito da palavra fascismo. Estou convencido de que se usa mais nos dias de hoje do que entre as décadas de 1930 e 1950. Há um século sabiam bem o horror sinistro que carrega, donde o discernimento se sobrepunha à leviandade. Mas o passado foi lá atrás. A repetir-se, o que é improvável, assumirá a forma de burla.A compulsão em ver fascismo em todo o lado, a par de anacrónica, nada resolve. Note-se, porém, a divertida ironia de ver os anti-fascistas domésticos a acotovelarem-se para estar “no lado certo da História”, expressão reintroduzida no debate público por Ben Shapiro, autor de cabeceira do movimento MAGA norte-americano.Regresso ao exemplo espanhol, mas recuando no tempo: em grande medida, a degradação política e institucional da II República, que muito contribuiu para a eclosão da Guerra Civil, deveu-se a acusações mútuas de ‘ameaças à democracia’. Uns e outros, de acordo com as respectivas conveniências, dividiram o país em bons e maus. Por baixo da retórica, ninguém estava preocupado com a Constituição, apenas com a demonização dos adversários e com a propriedade do regime.Décadas mais tarde, o catalão Miquel Roca i Junyent, um dos pais da actual Constituição espanhola, mostrou ter aprendido a lição: “La Constitución no es el texto de un partido, es el texto de la convivencia.” É isto. Vale para todos. Politólogo.Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.