França ganha sem explorar todo o seu potencial

A França, uma equipa que busca a sua identidade através de bons jogadores, mas que pratica um futebol medíocre, pôs fim na Rússia a um ciclo de futebol caracterizado pelo passe curto e muita posse de bola, representado por Espanha e Alemanha nos dois mundiais anteriores. É o corolário de um torneio que terminou com um jogo estranho, quase surreal.

Sem se aproximar da área e sem um remate à baliza croata, a França marcou dois golos na primeira parte. O autogolo de Mandzukic e o penálti de Perisic - mão na bola que mereceu a intervenção do VAR e que o árbitro Néstor Pitana julgou de maneira contrária à sua decisão num lance semelhante de Chicharito Hernández no México-Suécia - foram produto de qualquer coisa menos de bom futebol. Ganhou a França e todas as análises vieram em socorro do vencedor, como quase sempre acontece no futebol. No entanto, esta é uma equipa que está muito longe de alcançar o seu máximo. Sobra-lhe potencial; falta-lhe grandeza.

A Croácia jogou melhor e com mais destaque na primeira parte e na meia hora final do jogo. Perdeu porque insistiu em dar tiros no próprio pé - nos dois golos do primeiro tempo - e porque não conseguiu controlar Mbappé por breves momentos. Mbappé tem os rasgos dos jogadores que marcam o tempo. Sabe ganhar jogos e fá-lo de mil maneiras diferentes: é imparável em contra-ataque, remata bem de meia distância, move-se como uma enguia na área, dispõe de todo o tipo de recursos técnicos e é capaz de jogar com máxima precisão em velocidade máxima. Só é normal no jogo aéreo.

Mbappé é um dos dois jogadores com menos de 20 anos que marcaram um golo numa final do Campeonato do Mundo. O outro é um tal de Pelé. Não se pode falar de coincidência. É um jogador que coloca as defesas em pânico. Infelizmente, o plano miserável de Deschamps, um treinador sobrevalorizado que irá receber elogios universais depois da final, voltou a reduzir a influência de Mbappé e de Griezmann. O técnico francês, trabalhado como jogador no futebol italiano, defendeu um modelo estritamente defensivo que retirou poder de fogo e naturalidade à sua equipa.

Com enorme fadiga nas pernas depois de três eliminatórias decididas no prolongamento, a Croácia jogou melhor na primeira parte. Superou com alguma facilidade o muro defensivo francês e conseguiu algumas oportunidade na área de Lloris. Não cuidou dos detalhes, tão decisivos num jogo que nem sempre premeia o mérito. Acabou por afundar-se quando a ansiedade e a fadiga se juntaram. A equipa foi reorganizada para atacar o começo da segunda parte, uma péssima ideia quando pela frente está uma seleção com a da França, um conjunto de atletas que se deslocam a todo o vapor nos espaços vazios. Ninguém representa melhor este tipo de futebolistas do que Mbappé e Pogba. Os dois marcaram na final.

O 4-1 antecipava uma goleada histórica, mas nem com uma vantagem tão cómoda a França se libertou. Esteve a um pequeno passo de repetir o final de jogo angustiante por que passou frente à Argentina. O erro de Lloris no segundo golo da Croácia fez multiplicar as cautelas da equipa francesa, fechada no seu meio-campo durante meia hora, perante um adversário destroçado pelo cansaço mas liderado pelo fenomenal Modric, que sai do Campeonato do Mundo como um futebolista que marca uma era.

A vitória consagra o curioso ciclo francês. A cada 20anos - 1958, 1978, 1998, 2018 - aparece uma grande geração de jogadores. A França ganhou o Mundial, mas não deslumbrou. É uma equipa jovem, com um potencial enorme. Merece a grandeza e não ficar limitada a este perfil que Deschamps escolheu. Esse é um debate para o futuro. Hoje apenas sabemos que a França é a nova campeã mundial.

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