Que mudanças podemos esperar com os novos partidos? 

Mais do que a próxima solução governativa, a maior expectativa do novo quadro político diz respeito aos pequenos partidos que elegeram deputados. Há agora dez formações políticas no Parlamento, quatro das quais não existiam até há pouco. As estreias são um sinal evidente de que os eleitores querem mudanças. É menos claro que algo mude de facto, ou que as mudanças venham do crescimento dos partidos recém-chegados.

De uma forma ou de outra, os quatro partidos-sensação - o PAN (que se estreou no Parlamento há mais tempo), a Iniciativa Liberal, o Livre e o Chega - declaram todos ter vontade de crescer. À primeira vista, todos parecem ter espaço para isso.

O PAN já tinha mostrado que havia dezenas de milhares de apoiantes dos direitos dos animais e de eleitores pós-ideológicos à espera de um partido em quem votar. Por contraste, a Iniciativa Liberal veio mostrar que há eleitorado disponível para apoiar um discurso e uma agenda marcadamente ideológica - o fundamentalismo de mercado. Depois de ter tentado a sorte com o filofederalismo europeu (sem grande sucesso), o Livre apostou na afirmação política das portuguesas negras, tornando claro que as questões raciais têm menos visibilidade em Portugal do que merecem. Também por contraste, a eleição do deputado do Chega dá razão aos que suspeitavam ser possível navegar a onda do racismo e da xenofobia para fazer política em Portugal.

Não há motivo para pensar que aqueles nichos eleitorais se esgotaram nestas eleições. Tal como o PAN cresceu desde 2015, também a Iniciativa Liberal, o Livre e o Chega poderão aumentar as suas votações no futuro próximo. A entrada no Parlamento, ainda que muito limitada, proporciona-lhes uma visibilidade e recursos materiais de que não dispunham até aqui.

Todos esperam ganhar espaço à custa dos partidos que já cá estavam. Pela ambiguidade ideológica que alimenta, o PAN pode conquistar mais alguns votos a quase todos os outros partidos. A Iniciativa Liberal sonha em revolucionar a direita portuguesa, atraindo aqueles que no PSD e no CDS já não se revêem no estatismo e conservadorismo social que sempre caracterizaram a direita portuguesa. O Livre espera seduzir eleitores tanto do PS como do BE, convidando a que se pense a utopia sem exigir a revolução. O Chega conta com a repetição em Portugal do sucesso dos discursos populistas contra os imigrantes e a corrupção, que tantos votos atraíram noutras paragens.

Há espaço para crescer e há ambição, portanto. Mas não basta. Para fazer a diferença na governação, os partidos precisam de ganhar peso negocial e isso não se faz com um número pequeno de deputados. Para subirem de divisão, estes partidos precisam de ir além de causas para ter propostas políticas abrangentes, em que boa parte do eleitorado se reveja. Precisam também de recursos e de organização. Precisam, por fim, de não ter concorrentes à altura - como o Bloco não tinha em 1999, quando o ecossistema partidário era bem mais desafogado.

Ao PAN continua a faltar um programa coerente e abrangente - e não é sequer claro que queira afastar-se muito do núcleo duro da sua agenda. À Iniciativa Liberal não faltam recursos financeiros, como se viu nos meios utilizados na campanha, mas faltam duas outras coisas: conquistar o eleitorado para um projecto de sociedade ao arrepio dos valores dominantes; e construir uma organização coesa a partir de membros e simpatizantes que têm no individualismo radical um dos poucos valores partilhados. O Livre tem uma organização de activistas generosos, mas um programa a pensar num futuro imaginado - e a maioria dos eleitores vota a pensar nos problemas de agora. André Ventura bem pode afirmar (sem conseguir controlar o riso) que o Chega será o maior partido português daqui a oito anos, mas seria preciso uma hecatombe para que uma grande parte dos portugueses perdesse os pruridos que o voto racista exige.

Ficará tudo na mesma? Talvez não. A situação do PSD e do CDS continua muito incerta e potencialmente instável. O PS vai gerindo habilidosamente os vários compromissos a que está amarrado, num equilíbrio que requer líderes com dotes de equilibrista. O BE oscila entre uma massa militante que se vê como revolucionária e a vontade da direcção em atrair o eleitorado moderado, criando tensões internas permanentes e ocasionais embaraços públicos. O PCP perde votos ao ritmo da evolução demográfica e do isolamento político que se auto-impõe.

Apesar de todas as incertezas e fragilidades, os cinco partidos que já cá andam desde o século passado têm quadros, recursos materiais, capacidade de organização, reconhecimento público e outras formas de poder que excedem de longe as dos pequenos partidos. É mais fácil imaginar que os antigos se ajustarão aos novos tempos do que os recém-chegados ganhem um peso que lhes permita mudar a política nacional. Quando daqui a uns anos olharmos para trás, o maior contributo dos novos partidos pode ter sido a mudança que induziram nos que já cá andavam.

Economista e professor do ISCTE

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