Irão-EUA e as realidades paralelas na finança e nos media

Habituámo-nos à ideia de que os mercados financeiros ocupam um lugar destacado nas notícias. Mas não é comum que a finança e os media produzam sinais contraditórios sobre o que se passa no mundo. Foi isso que aconteceu com a tensão militar entre os EUA e o Irão, que marcou os primeiros dias de 2020.

A morte do general Qassem Soleimani, assassinado a 3 de Janeiro por um drone das tropas americanas, abriu as notícias em todo o mundo. O tom era inquietante, como é comum na era da informação-espectáculo. O mundo estaria à beira de uma guerra de grandes proporções. Os efeitos do conflito sobre o preço do petróleo e as trocas internacionais poderiam levar a economia global para uma nova recessão.

Numa primeira análise, a evolução dos mercados internacionais parecia validar aquela tese. Assim que correu a notícia da morte do general iraniano o preço do barril de petróleo ultrapassou os 70 dólares, o que não acontecia há muitos meses. Os índices bolsistas caíram e os preços de alguns activos mais seguros (ouro, dívida soberana, etc.) cresceram, sugerindo um aumento do risco percepcionado pelos actores financeiros. O comportamento dos investidores parecia validar a inquietação transmitida pelos media. Mas não era bem assim.

Os indícios de crise oriundos dos mercados financeiros foram, na verdade, pouco expressivos e pouco duradouros. Escassos dias depois do ataque, os preços dos vários activos (petróleo, acções, obrigações) regressaram a níveis do início do mês, de onde na verdade nunca chegaram a afastar-se muito. Para qualquer observador atento, a distância entre o alarme da comunicação social (em especial das televisões) e a reacção contida dos mercados não passou despercebida.

A relativa tranquilidade com que os investidores internacionais reagiram ao momento de tensão pode ter por base vários motivos. O regime do Irão tem pouco a ganhar com uma escalada do conflito. Os EUA são hoje menos dependentes do petróleo do médio oriente (em particular da produção iraniana) do que no passado. As economias mundiais são hoje menos atingidas por aumentos significativos do preço do petróleo: cada vez que sobe o preço do crude aumenta também a produção a partir de fontes diversas (poços em águas profundas, petróleo de xisto, etc.), já identificadas mas com custos de produção mais elevados, o que limita o crescimento dos preços. A simples ameaça de entrada de novos concorrentes cria um incentivo aos produtores actuais para manterem os preços do petróleo sob controlo.

Outro tipo de factores ajuda a compensar eventuais inquietações decorrentes da tensão no médio oriente. O acordo comercial entre os EUA e a China, agora anunciado, vem pôr termo a ano e meio de tensão diplomática entre as duas maiores economias do globo, no que foi até aqui a principal fonte de incerteza económica mundial. A continuação das políticas monetárias não-convencionais, assumidas pelos principais bancos centrais, ajuda a fomentar o sentimento de estabilidade. Também o impasse em torno do Brexit parece estar ultrapassado (para já) e a ausência de eleições relevantes nos países da UE em 2020 adia outros motivos recorrentes de preocupação.

Dirão que é fácil explicar a posterior o impacto modesto da tensão entre os EUA e o Irão na evolução dos mercados internacionais. Mas o interessante neste episódio não é tanto a explicação para o que sucedeu, mas o facto de investidores e meios de comunicação social terem reagido de forma tão distinta ao mesmo acontecimento.

A diferença de reacções pode ter várias origens. Uma possibilidade é que os investidores internacionais estejam a subvalorizar os riscos, talvez por se fiarem em demasia na capacidade das autoridades para prevenir e/ou combater eventuais crises. Talvez os media tenham reagido com base em experiências do século passado, não percebendo que o mundo funciona hoje de forma distinta. Ou talvez a comunicação social tenha percebido desde cedo (tal como os investidores e analistas de mercado) que ainda não era altura para anunciar o Armagedão, mas não resistiu à tentação de atrair audiências reportando uma história excitante. Não sei qual das explicações é preferível. Nenhuma delas é tranquilizante.

Economista e professor no ISCTE

*O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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