A importância de (também) dizer bem

"Para quê só dizer mal, se há tanto bem para dizer?" Li a frase há dias na sala de espera de um centro de saúde de Lisboa. Os serviços públicos em Portugal já tiveram melhores dias - é bom que se saiba. Mas não é menos importante reconhecer o que se faz bem, muitas vezes em condições que têm tudo para correr mal.

Como utilizador dos serviços públicos em Portugal, já vi de tudo. Desde médicos mal-encarados e pouco cuidadosos, em esperas intermináveis nas urgências dos hospitais, até equipas inteiras de profissionais de saúde a dar o seu melhor para garantir o bem-estar dos outros a tempo e horas. Desde escolas sem projecto educativo e professores ausentes, até estabelecimentos de ensino para quem cada aluno é uma missão de desenvolvimento humano. Desde esquadras de polícia com pessoal incompetente e autoritário, até agentes e guardas dispostos a ir ao fim do mundo para garantir a segurança de cada um. Desde tribunais onde se desespera por um papel ou uma sentença, até juízes e oficiais de justiça com a noção clara do seu impacto na vida das pessoas. Nas repartições de finanças, nos serviços municipais, nos registos notariais - a lista é longa -, o padrão repete-se.

Nisto o público não se distingue muito do privado. Em qualquer área da actividade humana, há do melhor e do pior.

Alguém me dizia que 30% dos profissionais são muito bons ou excelentes. Os outros, deduz-se, são menos bons. Não têm de ser todos maus, podem ser assim-assim. Talvez haja uns 30% que não chegam a ser assim-assim e desses uma parte não deveria mesmo ter a profissão que tem. A tese surgiu numa conversa sobre professores do ensino básico e secundário, mas estendia-se a outras profissões: médicos e enfermeiros, juízes e advogados, políticos e sindicalistas, polícias e militares, taxistas e empreiteiros, contabilistas e empresários.

Não é estranho, mas há um problema. No que aos serviços públicos diz respeito, só costumamos saber do que corre mal ou muito mal. Há várias razões para ser assim, umas que vêm por bem, outras nem por isso.

A primeira razão é que os serviços públicos em Portugal estão mesmo aquém do que deveriam. Quase duas décadas de estagnação salarial, restrições à contratação e falta de investimento público limitam a capacidade de resposta de qualquer serviço, independentemente da qualidade dos profissionais que lá trabalham. A segunda razão é que os serviços em causa (saúde, justiça, segurança, educação) podem ser decisivos para a vida das pessoas. Por isso, quando falham, a revolta é grande. Estas são razões justas para enfatizar o que de menos bom se passa nos serviços públicos portugueses.

Há outras razões menos honrosas para que se ouça dizer mais mal do que bem dos serviços prestados pelo Estado. Uma delas é o facto de a intervenção pública ser, quase por definição, objecto de disputa política. Quem está na oposição não resiste à tentação de subir nas sondagens usando os maus exemplos para atacar o governo, mesmo quando a origem dos problemas está em decisões tomadas no passado por quem agora critica. Mais grave ainda, os serviços prestados pelo Estado (a começar pela saúde, mas não só) são um negócio apetecível para alguns actores privados. Para estes, dizer mal do sector público não é um exercício de análise - é uma manobra de propaganda, com olhos postos nas oportunidades de lucro. E há ainda a lógica da concorrência na comunicação social, onde só o que corre mal tem direito a parangonas.

Para quem todos os dias dá o melhor de si pelo bem-estar colectivo, a tendência para enfatizar o que não corre bem é cansativa e frustrante. Não é que queiram esconder os problemas. Pelo contrário, esses profissionais são os primeiros a desejar que se conheçam as condições em que trabalham: professores que fazem as vezes dos funcionários administrativos, dos assistentes sociais e dos psicólogos que faltam nas escolas; médicos e enfermeiros que lavam os carros de emergência em que se deslocam, se não querem trabalhar em viaturas imundas; polícias que pagam do próprio bolso os equipamentos de que necessitam para trabalhar em segurança. Mesmo assim, quem trabalha no sector público não espera que apenas se aponte o que corre mal.

Não é assim tão difícil reclamar por melhores serviços e, ao mesmo tempo, elogiar quem dá o melhor de si para manter o país em pé. Até ver, o elogio não paga imposto. Porquê esquecê-lo? Para quê só dizer mal, se há tanto bem para dizer?

Economista e Professor do ISCTE. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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