Ajudas do Estado à imprensa? Os riscos talvez compensem os perigos da inacção

Talvez já venha tarde o apelo do Presidente para um pacto de regime, para uma intervenção pública na comunicação social. Quem está no negócio sabe que já foi perdido muito tempo, muito dinheiro e algumas boas tentativas e oportunidades para salvar o barco.

A forma como, enquanto comunidade, temos lidado com a degradação do ofício a que chamamos jornalismo e com a tabloidização de alguns meios de referência é um dos sintomas mais preocupantes, mas está longe de ser o único.

Um país que, há anos, dedica mais tempo a discutir as incidências da jornada passada - ontem a votação final global do OE2019 mereceu bastante menos destaque do que a novela Rui Vitória/SLB, por exemplo - ou a analisar os movimentos e motivos da "mulher do triatleta" e que pouco tempo gasta a acompanhar a marcha do poder executivo, as decisões e os temas que verdadeiramente afetam a vida de cada um, tem o que merece.

Num país que pouco lê e que tem uma relação distante com a cultura, seria de prever que os novos hábitos de consumo de informação teriam um impacto devastador.

Ninguém tenha a ilusão de que cai sozinho. Acionistas, gestores, jornalistas, anunciantes e, no fim do dia, consumidores, todos têm (temos) uma quota-parte de responsabilidade no atual estado da comunicação social.

Seja por um tardio despertar para novas tendências ou pelo abraçar apaixonado de receitas externas pouco adaptadas ao nosso mercado; seja por uma teimosa resistência à mudança ou por acharmos que nada tocaria nas nossas marcas centenárias e instituídas, todos temos culpa.

Não chega, a esta altura, dizer que está em causa uma peça fundamental da democracia. Também de pouco serve concluirmos que estamos perdidos e sem soluções perante a mudança dos hábitos de consumo. E estamos... A erosão de leitores, ouvintes e telespetadores dura há muito e há muito que ignoramos sinais óbvios de perda de relevância, de credibilidade e de influência.

Perante a quebra de receitas decidimos emagrecer salários e redações, trocámos experiência por horas de trabalho barato e precário, abdicámos de formar e enquadrar quem entra na profissão. O título não casa exatamente com a notícia, mas dá cliques? Publique-se... A notícia é do vizinho ao lado? Copie-se... Dá cliques. Parecemos todos iguais, a toda a hora, a dizer exatamente a mesma coisa? Ninguém há de dar por isso. E dá cliques.

A forma assimétrica como a crise tem afetado os meios - mais os de referência e que insistem na qualidade, menos os que optam por alimentar a imagem de um país dividido, polarizado e mergulhado num caldo de escândalos e confrontos - deve preocupar-nos. É um fator ativo de mudança da nossa comunidade, para caminhos pouco aconselháveis. Deve preocupar-nos a nós, jornalistas, a quem consome informação e, parece-me óbvio, ao poder político.

Entende-se o apelo de Marcelo Rebelo de Sousa, tal como se entendem as razões de quem levantou sérias dúvidas sobre apoios estatais à comunicação social. Não me parece que haja fórmulas simples ou isentas de riscos para a independência do jornalismo. O que sei é que o tema merece reflexão, debate calmo e um cordão sanitário que garanta imunidade contra guerrilha política.

Talvez o debate esteja a chegar tarde, mas o assunto é demasiado sério para que o continuemos a ignorar. A fragilidade de boa parte dos grupos de comunicação social e a forma como, a cada dia, o exercício de mediação e fiscalização perde relevância e consumidores merecem uma ação do Estado? Muito provavelmente.

Acredito que os riscos compensam os perigos da inação. Talvez seja melhor agir agora, assumindo esses riscos, do que acordar um destes dias num país partido ao meio. Sem uma imprensa saudável e independente, iremos desaguar inevitavelmente numa comunidade onde cada um terá a sua verdade, onde o debate público será impossível por falta de uma base factual comum e onde as opiniões e as perceções infundadas hão de valer mais do que os factos. Já vivemos perto dessa fronteira, basta navegar uns minutos pelas caixas de comentários desta e de outras casas para espreitar o futuro.

É melhor não esperarmos impávidos e serenos pelo dia em que será um qualquer Trump ou Salvini a potenciar vendas de jornais e audiências de rádio e televisão, apenas como arma de resistência.

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