Ao menos que fôssemos aliados

Há uns quarenta anos, num daqueles dias de chuva torrencial que inunda tudo, a minha mãe atravessou o Largo do Rato em contramão, para fugir aos géiseres que emergiam das condutas de água e que teriam submergido o nosso carro e os que vinham atrás. Perante o meu horror de criança bem-comportada, perguntou: "Achas que a polícia me vai multar? Até agradece."

Nesta semana, a Comissão Europeia fez o que o polícia imaginário da minha mãe teria feito: conformou-se com a evidência e disse que sim, que os Estados podem obviamente incumprir as regras e afundar-se em défices se isso for a única maneira de salvar os serviços de saúde, primeiro, e a economia depois. E até fez mais do que isso. Mas foi pouco e, sobretudo, não foi, nem podia ser, o essencial.

Nem o mais federalista dos europeus defende que deveria ser o presidente do Conselho, Charles Michel, em vez de Marcelo Rebelo de Sousa, a declarar o estado de emergência. Ou Ursula von der Leyen, em vez de António Costa, a determinar se as escolas fecham ou não. E mesmo quanto a Lagarde, que começou por falhar, não pode ser a presidente do Banco Central que salva a política.

A Europa que nos últimos dias desapareceu foi a dos Estados. Os que podendo ser europeus e agir em comum escolheram ser nacionais. Os que podendo decidir, agora, que faremos o caminho em conjunto, e juntos sairemos daqui, discutem já como se financiará o défice de cada um sem ter de responsabilizar os outros. Ou abdicando de soberania.

Não foi preciso um exército único para os aliados combaterem juntos. Não foi preciso uma união monetária para fazer o Plano Marshall. Foi interesse próprio e bem comum.

A 10 de março, o embaixador representante permanente de Itália junto da União Europeia, desesperado, publicou um artigo de opinião no Politico (um jornal meio americano, meio alemão que é o mais parecido com a ideia de um jornal sobre a Europa) a pedir que a União Europeia encarasse a tragédia em Itália como um problema de todos. Os chefes de Estado e de governo dos restantes 26 países responderam com silêncio. Nos discursos de Merkel, Macron, Costa, Mitsotakis ou Rutte, a Itália não é referida e a Europa aparece como uma solução de recurso. Como se a União Europeia fosse a Cruz Vermelha.

Enquanto a província de Hubei sofria o maior impacto do coronavírus, o resto da China era a garantia de que a resposta seria comum. É um estado. Certo. E não é uma democracia. Certo, também. Mas a decisão de agir em conjunto pode ser tomada aqui, por líderes democráticos de países que são muito mais do que parceiros.

Se isto é uma guerra, pedir aos dirigentes europeus que sejam aliados não pode ser romantismo.

Consultor em assuntos europeus.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG