O coronavírus e a verdade

Está agora confirmado que a ciência e a medicina prática não sabem muito sobre o vírus que está a matar pessoas em todo o mundo. A covid-19 está aqui para ficar por muito tempo e não há ninguém que possa dar respostas certas a muitas perguntas. Todos aqueles que tentaram fazê-lo durante os últimos meses, cometeram erros graves num momento ou outro, sem más intenções ou deliberadamente.

Para os peritos médicos é difícil admitir que não há conhecimento suficiente sobre o coronavírus. Se os obrigarmos a falar sobre o futuro, eles têm de dizer muitas coisas, não com base no conhecimento real, mas nas expectativas, desde as alegações de que o vírus desaparecerá durante o verão, que ele morre a 26 graus Celsius ou que evidentemente se tornará mais fraco.

Hoje é óbvio que tudo isso não é verdade. A infeção está a espalhar-se quase sem nenhum controlo, os sistemas de saúde em muitos países estão à beira do colapso ou, além disso, o público, lenta, mas seguramente, está à procura de quem culpar.

Em primeiro lugar, há os políticos que conduziram as suas próprias políticas durante a epidemia, tentando usá-la para alcançar os seus objetivos políticos. É claro que eles usam os médicos e as suas declarações forçadas que não estão comprovadas. O dedo ser-lhes-á apontado pelos mesmos políticos que, evidentemente, tiveram maneiras de influenciar a sua decisão sobre as restrições no passado, explicando que a economia deve ser preservada. Nesta situação, alguns especialistas demonstram "compreensão" pelas necessidades do estado, emitindo declarações cada vez mais positivas e otimistas sobre a epidemia cujo pico já está ultrapassado. Outros, ao mesmo tempo, tentaram ser mais cautelosos, distanciando-se por vezes dos outros membros do mesmo grupo consultivo em que estavam a trabalhar. A massagem deles era totalmente diferente e perturbadora.

Não existe um sistema de saúde capaz de lidar com este tipo de pandemia. O perigo esteve sempre à espreita e aqueles cujo dever é vê-lo antes do público em geral hesitavam em reconhecê-lo.

Os políticos seguiram o primeiro grupo, tentando não apenas "normalizar" a vida no país o mais rapidamente possível, mas também reivindicar o sucesso da sua política. Em caso de falha na proteção da população, eles poderiam sempre culpar os especialistas.

O público, infelizmente, está perplexo em todo o mundo. Uma parte iria sempre seguir as medidas restritivas, mas a maioria não gosta delas. Portanto, se alguns especialistas e políticos apresentam as alegações de que o vírus será derrotado muito em breve, as pessoas gostam porque querem sentir-se seguras, mesmo que o sentimento seja totalmente falso.

O resultado foi devastador. Na ausência de medidas a serem seguidas, como distanciamento social e máscaras, as pessoas vão às festas, aos jogos de futebol. E, muito em breve, como parece, tudo estará de volta à casa da partida. Estamos novamente no início.

Não existe um sistema de saúde capaz de lidar com este tipo de pandemia. O perigo esteve sempre à espreita e aqueles cujo dever é vê-lo antes do público em geral hesitavam em reconhecê-lo. A natureza não pode ser derrotada como os opositores políticos ou a concorrência nos negócios. Ela tem os seus caminhos, vai em frente, e os discursos políticos não têm poder para a combater. Os maus resultados de governar durante uma crise como a pandemia têm de aparecer a determinado ponto. Cabe aos eleitores decidirem se esses erros são algo que pode ser "perdoado" ou se foram tentativas deliberadas dos políticos para se apresentarem como heróis e defensores da nação. Os especialistas não podem deixar de ser culpados, independentemente do que fizeram ou não.

O coronavírus é obviamente muito capaz de mostrar abertamente todas as fraquezas dos sistemas políticos e da democracia. As pessoas em alguns países não estão prontas para aceitar as restrições, independentemente do perigo em que se colocam. Elas acham que o mal não chegará às suas casas, apenas às dos outros e, quando chegar, é tarde demais para fazer qualquer coisa. A culpa será dirigida também aos políticos e os políticos culparão os especialistas. E se acrescentarmos os políticos que pensam que podem explorar a pandemia a seu favor, devemos ter muito medo das próximas eleições.

A pior combinação para o povo é misturar populismo e pandemia, o que só pode resultar na catástrofe total. Os elementos são: amadorismo ao lidar com a pandemia, rejeição da realidade, uso indevido dos especialistas e transferência da culpa para o endereço errado.

Antigo embaixador da Sérvia e investigador do Centro de Estados Internacionais do ISCTE

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