Reforma aos 77: ai se os Sindicatos leem... (era bom que lessem)

Em reuniões sindicais de vária índole ouço sempre a mesma ladainha. Querem coisas opostas, incompatíveis entre si, por contrariarem a ordem natural dos vasos comunicantes - a saber, trabalhar menos, cada vez menos, e ganhar mais, cada vez mais. E reformarem-se cada vez mais cedo...

Percebo que os sindicatos existam para tal, eu próprio sou sindicalizado, mas estes mesmos sindicatos têm de ir mais além e não pensarem que todas as pessoas se reveem nesta dicotomia - que seria ótima se possível.

Não é objetivo deste artigo criticar ou sequer discutir matéria sindical que não me interessa muito e tantas vezes me enoja mesmo, em certos setores, mas sim apresentar uma ideia.

Gosto do que faço, sinto-me bem onde estou, acho que sou útil a algumas pessoas e quando chegar aos 70 anos não acho justo ter de me reformar se continuar com vitalidade, com vontade e lúcido. Poderão ser introduzidas algumas normas nomeadamente quanto a quem tem posições de chefia. Acho que nessa altura poderei abandonar posições de chefia que eventualmente tenha, para permitir que outros possam ascender. Há esta e outras hipóteses para se ultrapassarem situações de eventuais conflitos de interesse. Não se devem frustrar expectativas naturais de outros, mas eu quero continuar a trabalhar normalmente como até aqui, no SNS.

Assisti a uma pessoa da minha família que reformou forçada aos 70 anos, continuando a vir ao hospital até aos 80, onde manteve uma atividade muito útil em setores específicos.

Percebo que quem queira reformar-se "cedo" o faça por cansaço, por falta de estímulo, por detestar o emprego que ocupa e o trabalho que realiza. Mas quem estiver em posição contrária deverá ser reformado à força? Se não se pudesse ser Presidente da República aos 70 anos, o atual Presidente da República não o poderia ser - e não me parece que lhe falte vontade, vitalidade ou lucidez.

Não sei a quem me devo dirigir para que esta possibilidade possa vir a ser considerada, mas entendo que os políticos de todos os partidos deviam desde já estudar esta hipótese que terá, estou certo, muitas vantagens.

P.S. Com esta opinião escrita leio que o governo em boa hora prepara legislação e conta, como se esperava, com a oposição "estúpida" dos Sindicatos.

Chefe de Serviço de Pediatria, professor auxiliar da Faculdade de Medicina

Hospital de Santa Maria

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