Defender a tauromaquia é defender a democracia e a liberdade

Neste dia 6 de julho são votadas na Assembleia da República três propostas de lei contra a Festa de Toiros. Duas do Bloco de Esquerda e uma do PAN, visando esta determinar a abolição das corridas de toiros em Portugal.

Em cada legislatura estes partidos tomam iniciativas antitaurinas, como parte de um processo mais vasto de ataque aos portuguesas e portugueses que, no seu direito, gostam de toiros e se identificam com a cultura tauromáquica.

Por isso, defender a tauromaquia é hoje defender a democracia e a liberdade contra o fanatismo animalista, o oportunismo político e o totalitarismo do pensamento cultural único. Note-se que não se trata apenas de confrontar opiniões e preferências, mas de impor uma proibição de uma cultura ancestral e viva no nosso país, por parte de correntes sociais e ideológicas minoritárias que desprezam o pensamento crítico e a fruição estética, usam a mentira e a manipulação como método. E que procuram por um lado seduzir, usando um duvidoso amor aos animais, como as sereias, e proibir o que foge aos seus padrões ideológicos, como as ditaduras.

É preciso, neste contexto, esclarecer algumas questões que alguns políticos, uns por ingenuidade, outros dispostos a cavalgar o populismo animalista, e outros ainda temerosos perante a ferocidade do discurso dos fanáticos do animalismo, parecem não querer ver.

A primeira é que, como diz a lei portuguesa, a tauromaquia faz parte da identidade do nosso país, integrando um universo simbólico e festivo diversificado de que é feita a cultura portuguesa

Em segundo lugar, querer pôr fim, por decreto, à tauromaquia, nas suas diversas modalidades, releva de uma atitude totalitária e intolerante, contrária à democracia cultural e ao espírito e letra da Constituição. Trata-se de, em nome de uma falsa defesa dos animais, impor um padrão de gosto de minorias ativistas alimentadas por interesses económicos poderosos (nomeadamente as chamadas indústrias Pet), não apenas àqueles que se revêm na cultura tauromáquica e amam o Toiro de Lide, mas a toda a sociedade. O ataque à tauromaquia é tático, pois o fim é bem mais vasto e tenebroso. Trata-se, por um lado, de alimentar interesses económicos que exploram o normal gosto das pessoas pelos animais de companhia e, por outro lado, impor um modo de vida que essas minorias consideram mais evoluído, como aconteceu sempre com o pensamento totalitário.

Em terceiro lugar, os deputados que neste dia votarão estas propostas não podem ser alheios ao que pode acontecer se passar uma proibição ou uma lei que provoque danos sérios à cultura tauromáquica. A tauromaquia manifesta-se das mais diversas formas de Norte a Sul do país, passando pelos Açores, atraindo seguramente mais de dois milhões de cidadãos portugueses. Em muitas regiões, rurais e urbanas, constitui mesmo um fenómeno emblemático que distingue comunidades que a vivem como referência festiva essencial. Sentida com paixão coletiva arrebatadora. Essas comunidades não compreendem a perseguição de que são alvo, apenas porque pensam e sentem de forma diferente dos que os perseguem. E não tolerarão qualquer proibição, a qual, com toda a probabilidade, provocará alterações da ordem pública com consequências imprevisíveis. Os deputados que participarem dessa perseguição serão responsáveis pelo que vier a acontecer. E serão responsabilizados, seguramente.

As deputadas e os deputados que, juntamente com outros agentes políticos, se exibem nas Festas do Porto ou de Lisboa e nos mais diversos locais, onde em nome da alegria coletiva e da comunhão festiva, se sacrificam milhões de animais, entre os quais sobressaem as sardinhas e os porcos (o que não pomos em causa, pois apenas queremos salientar a hipocrisia de quem se comporta de forma dissonante conforme a circunstância e a moda), devem compreender que nada, a não ser a absurda arrogância ou o puro calculismo político, os distingue dos seus concidadãos que gostam de toiros. É insensato que se julguem mais sensíveis, mais evoluídos, mais sofisticados ou melhores amigos dos animais do que os aficionados aos toiros. Uma diferença de gosto ou opinião é coisa que a democracia aprecia. A perseguição por delito de gosto é regressão civilizacional.

No dia da votação começa uma grande festa em Vila Franca de Xira. O que peço aos deputados é apenas que votem responsavelmente e não por medo ou ilusão de ganho político. E depois venham até esta simpática cidade ribatejana da AML, divertir-se e perceber sobre o que é que estiveram a votar.

Sociólogo e professor universitário, Presidente da Direção da Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal

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