A política externa de Putin e a ilusão de uma Grande Rússia

Na senda da "Doutrina Primakov", a política externa russa contemporânea encontra-se consagrada na Conceito de Política Externa da Federação Russa e formalmente centra-se na "defesa dos interesses nacionais da Federação Russa" e na "concretização das suas prioridades estratégicas nacionais". Nos últimos três séculos estas prioridades estratégicas nacionais assentam em três pilares. O primeiro pilar consiste na necessidade sentida pela Rússia de ter profundidade estratégica e zonas-tampão seguras relativamente a potências vizinhas. O segundo pilar da política externa russa tem sido a sua ambição em ser reconhecida como uma grande potência. O terceiro pilar é uma complexa relação de rivalidade cooperante com o Ocidente.

No que tange ao primeiro pilar, Putin não apenas manifestou forte oposição à expansão da NATO e da UE para leste, como recriou a teoria da "esfera de interesses privilegiados" da Rússia (que pressupõe que vários países da ex-URSS - como a Geórgia e a Ucrânia - estejam fortemente alinhados com o Kremlin). Por outro lado, a menção da Rússia como Velikaya Derzhava ("Grande Poder") é usada regularmente nos discursos e eventos-chave e o regime de Putin tem usado e abusado de retórica neonacionalista e do simbolismo tradicional da história soviética e czarista. Incluindo reescrever e desvirtuar a História. Assiste-se também, desde 2000, a um ressurgimento das instituições tradicionais da autoridade na Rússia - um governo forte e paternalista, os militares, a Igreja Ortodoxa Russa - sob a égide dos siloviki ("homens fortes") de Putin, a maioria dos quais provém do FSB (segurança interna) e do SVR (segurança externa). Um dos mais importantes siloviki, N. Patrushev - que sucedeu a Putin na chefia do FSB - afirmou acreditar que as potências ocidentais, em especial os EUA, procuram destruir a Rússia. Mas, se muitos destes homens fortes de Putin cavalgam a cartilha antiocidental, outros (ex: oligarcas) trabalham estreitamente com interesses e empresas ocidentais, destarte reafirmando a ambivalência do terceiro pilar: a Rússia tem elites com raízes europeias, com interesses económicos na Europa e noutras geografias, mas cada vez mais interligados com a Ásia.

O líder russo sabe bem que só na vertente militar a Rússia é um Grande Poder. Tem uma economia assente na exploração de matérias-primas, com um PIB ligeiramente superior a Espanha. A indústria russa é inferior à de países intermédios como a Coreia do Sul, a capacidade de inovação e tecnológica é fraca, não tem praças financeiras dignas desse nome, e a sua projeção de soft power é quase inexistente.

Para que a Rússia seja de novo uma grande potência, relevante num mundo multipolar, para além de manter e gerir uma rede de conexões a nível mundial provinda da era da URSS, fez uma política de alianças centrada na China e na Ásia Central e, sobretudo, optou por uma estratégia de divisão do mundo ocidental. Seja com utilização de recursos cibernéticos - patrocinando ataques a infraestruturas de países ocidentais e interferências em processos eleitorais relevantes (eleições gerais ou votações como o Brexit) - seja financiando partidos antissistema.

Tudo em nome de uma mirífica Grande Rússia, num país com infraestruturas económicas e sociais débeis e governado por siloviki predadores dos recursos do país.

Consultor financeiro e business developer
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