A primeira crónica de 2021 que aqui publiquei tinha como título O regresso do Diário de Notícias e aplaudia a decisão da Administração de manter uma edição diária em papel de um jornal com longa tradição, que, aliás, comemora 160 anos em 2024. Mais do que um órgão de comunicação social, trata-se de uma memória que atravessou importantes períodos da vida nacional. O Diário de Notícias tem início no ano em que é abolida a pena de morte e apresentava-se como inovador e alinhado com os títulos de grande tiragem das capitais europeias, como o New York Times, que surgira em 1851..O mundo mudou e as estratégias de comunicação são mais complexas em função de públicos cada vez mais estratificados e, sobretudo, de meios diferenciados, que passaram da tecnologia do papel e da imagem, ao digital em grande diversidade de formatos. Mais importante do que os formatos é decerto a capacidade de encontrar vias que reforcem os grupos de comunicação social e prossigam a sua função primeira de informar e servir de poder moderador. Num tempo em que crescem as falsas notícias e as inverdades, é fundamental o pacto de confiança com os leitores, sem prejuízo (sobretudo, beneficiando) de diferentes linhas editoriais e das perspetivas críticas que as acompanham..A teoria das sete circunstâncias de Aristóteles (quem, o quê, quando, onde, porquê, como, por que meios) constituem a base da notícia e asseguram ao leitor “o direito a ser informado com verdade, rigor e isenção”, como estipula, neste caso, o primeiro dos catorze artigos do Estatuto Editorial (EE) do Diário de Notícias. São ainda reveladores o segundo e o terceiro artigos desse EE: “2. O DN constitui, sem prejuízo da sua vivacidade jornalística, um traço de união entre todos os portugueses, independentemente das suas opiniões políticas ou crenças religiosas, desempenhando um papel moderador dos conflitos que se manifestam na sociedade portuguesa. 3. O DN concilia a sua vocação de órgão de grande informação com o seu papel tradicional de jornal de referência com responsabilidades na formação da opinião pública dirigente.”.Pode-se considerar, porém, que estes nobres (e necessários) objetivos se inscrevem à revelia das tendências dominantes que cada vez mais rejeitam a moderação e preferem a visão da tribo com que se identificam. Por outro lado, a ambição de formar uma “opinião pública dirigente” (leia-se, uma elite com pensamento próprio) também se confronta com a tendência para seguir opiniões formadas, prontinhas a consumir..Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, que tem refletido sobre a sociedade contemporânea e se tornou famoso com o seu livro A sociedade do Cansaço (2010), mostra, num ensaio sobre cultura e globalização, o que designa como hiperculturalidade, que decorre de dois processos simultâneos: a fragmentação da cultura e, ao mesmo tempo, a sua assimilação e comunicação decorrente da globalização. O medo do vazio leva ao que designa como “eros da conexação”, que não cria proximidade, antes uma sobreposição em que cada um se torna indistinto (temos o exemplo das lojas históricas ocupadas por marcas globais que tornam homogéneas as identidades)..Neste primeiro artigo do ano de 2024, tive a tentação de introduzir algumas palavras no ChatGPT e deixá-lo discorrer sobre comunicação social, quarto poder, populismo e erosão democrática. Acabei por escolher uma versão mais negra que teme o fim de uma comunicação social que nos ajude a pensar e decidir. Acredito que o Diário de Notícias, como o Jornal de Notícias e a TSF, não são apenas parte da nossa história, mas sobretudo do nosso futuro democrático. Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos