O rapto de Europa

Na Primavera de 1950, Paddy pegou num barco e rumou até ao Porto. Deu umas voltas por Portugal, daqui seguiu até Grazalema, uma vilória na Andaluzia, província de Cádis, onde vivia um antropólogo seu amigo, Julian Pitt-Rivers, que por lá andava a fazer investigações para o doutoramento, à conta das quais, sabe-se lá como ou porquê, acabou por se casar com a ex-mulher do duque Miguel Primo de Rivera, irmão de José António, fundador da Falange.

Pouco antes de partir para Portugal, Paddy fora condecorado pelo rei Jorge VI, em cerimónia ocorrida no Palácio de Buckingham. Ao percorrer a fila dos agraciados, o monarca parou à sua frente, apontou para a medalha ao peito, pegou-lhe, e perguntou, em jeito de graça: "Onde é que arranjou isto?" Paddy diria mais tarde que lhe apeteceu responder ao rei dizendo ser ele o responsável pela oferenda, pois acabara de o fazer cavaleiro da OBE, The Most Excellent Order of the British Empire.

Merecera-o, sem dúvida. Em Agosto de 1940, Patrick Leigh Fermor, conhecido pelo diminutivo de Paddy, foi colocado na Albânia, como oficial de ligação do Exército britânico. Precipitara-se para Inglaterra mal soube que o seu país declarara guerra à Alemanha. De resto, conhecia bem o inimigo nazi: vira-o nascer e crescer, como a serpente no ovo, acompanhara a sua expansão sinuosa, insidiosa. Em 1933, com 18 primaveras, decidiu percorrer a Europa a pé, experiência que descreverá no livro Tempo de Dádivas, uma viagem a pé, publicado não há muito entre nós, pela Tinta-da-china. O périplo deveria levá-lo da Holanda, do Gancho da Holanda, até Constantinopla, atravessando a Alemanha e a Áustria, a Hungria, a Checoslováquia, a Bulgária e a Grécia e, por fim, a Turquia.

Paddy era então um jovem à deriva sem especial fortuna nem perspectivas de futuro. A infância fora marcada por outra guerra mundial, a Primeira, que o obrigou crescer - note-se, em plena felicidade - sob os auspícios de uma família de acolhimento, nos confins de Northamptonshire, enquanto a mãe e a irmã se encontravam retidas na Índia, junto do seu pai, um químico e geólogo eminente colocado no serviço colonial, sem poderem regressar a Inglaterra. Com um percurso escolar acidentado, expulso de várias escolas, pensou seguir a carreira militar e concorrer a Sandhurst, como muitos jovens da sua condição (que, diga-se, não era tão elevada quanto o próprio nos fez crer). Acabou por decidir tornar-se escritor, sem que nada o habilitasse especialmente para isso. Por volta dos 18 anos, foi viver para Londres, com um grupo de amigos, o que deu ensejo a mil tentações de boémia e festa que ameaçaram seriamente os seus projectos literários.

Tomada nesse contexto, a peregrinação a Constantinopla foi uma decisão sábia, que, se não lhe salvou a carreira de escritor, na qual se notabilizaria anos depois, lhe deu, pelo menos, uma oportunidade ímpar para observar de perto a gestação do nazismo. Por estranho que pareça, Patrick Leigh Fermor não foi o único a fazer turismo na Alemanha hitleriana. Como nos conta Julia Boyd em Travellers in the Third Reich, ao mesmo tempo que ele, muitos outros, sobretudo ingleses, fizeram da Germânia nazi o seu destino de férias ou, na esmagadora maioria dos casos, ponto de atracção fatal por tudo o que de mau, de péssimo, ali se desenrolava diante dos olhos dos que queriam e sabiam ver, tal qual como hoje, em nossos dias tumultuosos.

No seu trajecto, Patrick foi tropeçando em grunhos fardados, a cantar hinos em coro, afogados em gigantescas canecas de cerveja, viu retratos de Hitler e de Goebbels nas montras das lojas, pressentiu a iminência do desastre. Chegou a Istambul em Janeiro de 1935, não muito depois deslocou-se para a Grécia, sua terra amada. Conheceu uma aristocrata romena, teve com ela um prolongado romance, que a guerra interrompeu de súbito. Em Setembro de 1939, quando ouviu as notícias de que o seu país declarara guerra à Alemanha, regressou a casa, no afã de se alistar e de entrar em combate.

Voluntariou-se para ser lançado de pára-quedas na França ocupada, mas foi rejeitado. Os seus conhecimentos rudimentares de grego fizeram-no ser colocado na Península Helénica, primeiro na Albânia, logo a seguir na Grécia continental e, depois, em Creta. Em Atenas, travou amizade com uma personagem que o tempo transformaria numa lenda, o exuberante George Katsimbalis, então capitão do exército, poeta, tradutor, patrono das letras, que Henry Miller imortalizará como O Colosso de Maroussi e que Lawrence Durrell também conhecerá de perto. Além de George Katsimbalis, Paddy tornou-se próximo do príncipe Pedro da Grécia, neto do rei Jorge I (e, já agora, filho de Maria Bonaparte, a princesa psicanalista, protectora de Freud), que perdera o direito à sucessão ao trono devido ao casamento com uma plebeia russa, duas vezes divorciada, o que o fez tornar-se antropólogo, especialista no estudo da poliandria no Tibete e na Índia, e, mais tarde, oficial do exército grego.

Ao serviço das Operações Especiais, Paddy foi um dos organizadores da retirada da família real grega de Atenas, mas a sua acção principal durante a guerra, pela qual foi medalhado e mil vezes louvado, decorreu em Creta, onde foi colocado clandestinamente. A sua missão, arriscadíssima, consistia em dar apoio aos grupos de resistentes que se mantinham na ilha, sobretudo nas montanhas, e que levavam a cabo inúmeras actividades contra o inimigo alemão e italiano, desde sabotagens e homicídios à distribuição de propaganda pró-aliada, e às quais os nazis respondiam com terrível ferocidade, arrasando aldeias inteiras e liquidando centenas de civis indefesos, idosos, mulheres, crianças. Com o aproximar o fim da guerra, intensificou-se a barbárie, que atingiu níveis demenciais com um propósito atroz: quanto mais hediondos fossem os crimes perpetrados pelos soldados alemães (ou hunos, como lhes chamava Paddy), menos incentivo estes teriam para desertar ou capitular, pois sabiam de antemão que os cretenses jamais lhes poupariam a vida.

O maior feito de Paddy em Creta, descrito ao pormenor na notável biografia de Artemis Cooper (Patrick Leigh Fermor. An Adventure, 2012), foi, sem margem para qualquer dúvida, o rapto de um general alemão e a sua transferência para o Egipto. A sorte, o destemor e o sangue-frio necessários para uma operação daquelas foram tão dignos de um filme que, obviamente, foi feito um filme: Ill Met by Moonlight/Perigo na Sombra, de 1957, da dupla Powell-Pressburger, com Dirk Bogarde no papel principal. Houve de tudo: o sequestro do general e do seu motorista, a captura e utilização do carro em que seguiam, o disfarce dos raptores com uniformes nazis, a travessia perigosíssima de dezenas de postos de controlo fortemente armados, o refúgio em grutas nas montanhas, com as tropas germânicas no encalço, a devastar tudo à passagem. Durante as semanas em que estiveram em Creta, a aguardar o resgate nocturno por um navio vindo do Egipto, Paddy e os outros envolvidos na operação dormiram escassas horas por noite. O motorista acabou por ser liquidado pelos cretenses, o general Heinrich Kreipe, apesar de nunca ter sido maltratado, ficou gravemente ferido e Paddy esteve vários meses num hospital do Cairo, a recuperar das sequelas que a aventura lhe deixara no corpo e na alma.

Ao contrário dos seus antecessores no comando da guarnição de Creta, Kreipe não era um sanguinário, antes um homem desgastado pelos horrores da guerra, que chegara há pouco à ilha, vindo da frente leste, onde participara no brutal cerco a Leninegrado. Dos longos dias em que o teve sequestrado em seu poder, Patrick Leigh Fermor recordou um instante singular, extraordinário.

Durante uma pausa na fuga pelas montanhas de Creta, o grupo acordou um dia no meio das rochas, no preciso momento em que o sol se levantava no cume fronteiro. O alemão contemplou o vale distante e o astro que se erguia e murmurou em latim, para consigo mesmo, uma estrofe de Horácio: "Vides ut alta stet nive candidum/ Soracte" ("Bem vês como a alta neve branqueia/ O Soratte"). Paddy conhecia o poema, retomou-o no exacto ponto em que o general tinha acabado: "Nec jam sustineant ónus/ Silvae laborantes, geluque/ Flumina constiterint acuto" ("E suportam o peso/ Os cansados bosques e o gelo/ Áspero comprime os rios"). Depois, prosseguiu as cinco estrofes restantes, até ao fim. Em Tempo de Dádivas recordou o episódio: "Os olhos azuis do general tinham-se desviado do cume para os meus - quando terminei, depois de um longo silêncio, ele exclamou: "Ach so, Herr Major!" Foi muito estranho. Como se, durante um longo momento, a guerra tivesse deixado de existir. Ambos tínhamos bebido da mesma fonte muito tempo antes; depois deste episódio, as coisas foram diferentes entre nós durante o resto do tempo que passámos juntos."

Anos depois, quando Paddy era já um afamado escritor de viagens, dos maiores que o século XX produziu, e quando o general se encaminhava para o ocaso, voltaram a encontrar-se. Num programa da televisão grega, emitido em Abril de 1972, perguntaram a Kreipe se guardava algum ressentimento contra o antigo major. O general velhinho, que morreria não muito depois, respondeu com um sorriso aberto e disse que, se nutrisse alguma mágoa, não teria aceitado o convite para estar ali, diante do seu sequestrador. Acrescentou, uma vez mais, como fizera no Cairo, em 1944, que foi tratado com impecável cavalheirismo e a dignidade própria dos prisioneiros de guerra.

Depois da emissão, foram cear todos a uma taverna, onde estiveram até altas horas, a entoar canções de Creta e a contar histórias antigas. Já antes, noutra ocasião, o filho de Alfred Fenske, o motorista assassinado pelos partisans, depois de visitar o local onde o pai foi morto, pediu que fosse transmitido a todos os envolvidos que lamentava o incidente, mas compreendia-o como um evento natural em tempo de guerra, não guardando mágoa ou rancor de quem quer que fosse.

Hoje, era pura e simplesmente impossível existir um diálogo como o travado em 1944 entre aquele oficial alemão e o jovem major inglês. Num lapso de poucas décadas, arrasámos a raiz comum dos fundamentos da Europa, a fonte de onde aqueles dois homens, de países e culturas diferentes, puderam beber a mesma linguagem e comungar do mesmo espírito.

Não só a cultura clássica entrou em irreversível declínio como agora, mais recentemente, é o livro e a leitura que se encontram ameaçados de morte pela internet e pelo digital, pela tirania imbecil das redes sociais e dos smartphones. E, quando se esperava de um governo civilizado um gesto mínimo, um sinal, de apoio e incentivo à leitura, o que assistimos em Portugal foi o inverso, uma sucessão errática de desastres que, primeiro, nunca levaram a que os livros fossem considerados bens essenciais, como deviam; depois, conduziram a que as lojas tivessem os livros agrilhoados, sequestrados por cordões sanitários, enquanto ao mesmo tempo se podia tranquilamente comprar telemóveis, gadgets electrónicos, discos e filmes, até videojogos, pasme-se.

E agora, no culminar da asneira, proíbe-se as livrarias que se dedicam em exclusivo ao livro, as mais pequenas e mais carentes, de venderem a sua mercadoria, a qual, contudo, pode ser adquirida em todas as lojas que, além de livros, comerciem outros bens, como jornais estrangeiros, imprensa do coração, artigos de papelaria, horóscopos zodiacais, raspadinhas da sorte, cautelas do Euromilhões. Os livreiros, esses, é que não podem vender livros. Quem fez uma coisa destas, além de inculto, é deveras estúpido.


Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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