O partido dos fuzilados

São 20 dias de invasão esta terça-feira. A maioria de nós, que não percebe nada de estratégia militar nem sabe da dimensão das forças nem das características do armamento disponível dos dois lados, e sobre isso se limita a ler e ouvir quem supostamente sabe - e que, a atender a muitos dos "peritos" convocados pelas TV, nem por isso -, achava, no início, que a Ucrânia não aguentaria uma semana. Que íamos assistir a uma tragédia quase instantânea; a potência militar que acreditávamos (e acreditamos, tem o maior poderio nuclear do mundo, como Putin não se cansa de nos lembrar) ser a Rússia esmagaria sem dificuldade o país invadido, derrubaria sem tardar o governo e faria de seguida o que raio planeou Putin fazer com uma Ucrânia conquistada - e que ninguém, após o falhanço de tanta previsão e análise, se atreve a adivinhar.

Pois enganámo-nos. E, à medida que a resistência se vai aguentando e as consequências desta guerra, do desastre humanitário às ondas de choque económicas, se vão começando a fazer sentir, cresce o coro dos que acusam o governo ucraniano de não querer o melhor para o seu país, de "bravata", de "falsos heroísmos", de usar o povo como "escudo humano", de estar só agora a aceitar "negociar" aquilo que não aceitou antes do ataque. Porque, aceitando, poderia evitar a mortandade, o êxodo de refugiados, tanta dor e desespero.

É um raciocínio interessante este que, perante o uso ilegítimo da força, perante a invasão de um país soberano (se calhar a questão é mesmo essa: não veem a Ucrânia como um país soberano, ou um verdadeiro país, e nisso como se sabe têm em Putin companhia), culpa o invadido por não ter aceitado as imposições do invasor, por não ter dito: "Eh pá, sim, claro, quanto do nosso território querem, para a gente embrulhar? Dá para termos forças armadas, ou é para acabar com tudo? Façam aí uma lista do que doravante podemos e não podemos fazer, podemos e não podemos ser, e nós obedecemos, que é para isso que aqui estamos."

Se calhar estou enganada, mas do que me lembro é de ver muitas destas pessoas, que agora se enfastiam com Zelensky e o acusam de estar num bunker a fazer vídeos e tuitar, a tecer loas à coragem dos que, mesmo perante uma discrepância de forças como a que existia entre os timorenses e os indonésios, continuaram a lutar - nessa altura, não se recomendou aceitar as condições do invasor para poupar vidas e maçadas, ou estou equivocada? Nem se fez o elogio dos que, realpolitikamente, pugnavam pela "paz" com a Indonésia - pelo contrário, esses eram apodados de cúmplices e desprezíveis.

É, é mesmo interessante constatar como os que numas situações tanto defendem a paz noutras glorificam a guerra - porque, incrivelmente, parece que há guerras que consideram justas.

Veja-se por exemplo o PCP, que tanto propala o seu desejo de paz no caso da invasão da Ucrânia pela Rússia - sem, estranhamente, jamais exigir à Rússia que cesse a sua invasão, palavra que aliás o partido recusa usar - e nunca perde uma oportunidade de recordar como a URSS invadida lutou bravamente contra o avanço nazi, em contraste com o "apaziguamento" que caracterizou a reação das "democracias burguesas" às primeiras agressões de Hitler (esquecendo sempre, não se percebe porquê, o pacto de Estaline com a Alemanha para a invasão conjunta e posterior divisão da Polónia, em 1939).

"Mais de 20 milhões de mortes da União Soviética", clama por exemplo uma nota deste partido de 31 de agosto de 2019, nos 80 anos do início da Segunda Grande Guerra. "Nenhuma reescrita ou falsificação da História pode esconder a resistência heroica da URSS, do povo soviético, (...) que contrastou com a aceitação e o colaboracionismo das classes dirigentes de muitos países."

Albano Nunes, um dos ideólogos do PCP, chegava até em 2005, no texto A Resistência e o Fator Popular na Vitória, a ostentar como medalha o número de comunistas mortos nessa luta sem tréguas: "Nem as mais ferozes retaliações conseguiram travar um movimento que chegou a imobilizar enormes contingentes das forças de ocupação adquirindo também um forte peso militar. Milhares e milhares de trabalhadores e de patriotas foram presos, assassinados, deportados (...) Mas a rede clandestina da resistência não foi paralisada (...). O Partido Comunista Francês, com cerca de 75.000 dos seus membros mortos, ganhou o honroso título de "o partido dos fuzilados"."

O mesmo Albano Nunes deste tão pacífico PCP que tão recentemente - em 2020 - pugnava, no congresso do partido, pelo "derrubar do capitalismo pela força". Não a das ideias, a outra: "Como escreveu Marx, a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas. O poder material tem de ser derrubado por poder material".

Há pacifismos assim, tão conforme. Se calhar é mais honesto admitir que não é de defesa da paz que se trata, mas de defesa daquilo que se considera justo - e claramente para o PCP, como para outras vozes que verberam a resistência ucraniana, a Ucrânia não merece a chatice, quanto mais. É tudo, sempre, tão simples: por quem se toma partido.

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