O Manual de Gestão de Crises que o Governo fez… mas não está a seguir?

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Nesta crise que o país está a viver e que se prolongará durante ainda várias semanas, a prioridade é acudir a todas as pessoas que precisam de ajuda - seja na reconstrução, seja em apoios diretos - e prevenir a gravidade de novos incidentes nos próximos dias de chuva e ventos intensos. Mas também para isso é fulcral a coordenação política e de comunicação que o Governo deve assegurar com as entidades e a população para permitir que as informações certas cheguem a quem devem, para combater a desinformação e para assegurar a tranquilidade e o conforto de quem se encontra em situações difíceis.

Esta é uma das responsabilidades que tem falhado desde a véspera da tempestade Kristin: a comunicação por parte do Governo tem sido pouco sistemática, atabalhoada e, várias vezes, pouco empática. São exemplo as declarações da Ministra da Administração Interna sobre não saber o que falhou ou o “estar a trabalhar em contexto de invisibilidade”, o desastroso vídeo do ministro da Presidência Leitão Amaro (entretanto retirado), ou a forma como o ministro da Economia justificou que as pessoas teriam agora um pé-de-meia para fazer face aos custos adicionais provocados pela tempestade, porque terão acabado de receber o ordenado de janeiro. E é também exemplo a falta de informação sistemática e regular sobre o ponto de situação e sobre recomendações concretas à população - a que, por exemplo, o tempo da pandemia nos habituou.

No Governo, não haverá falta de consciência da importância da articulação política e da boa comunicação. Já depois do Apagão, em outubro, o Governo comunicou que teria aprovado em Conselho de Ministros um Manual de Coordenação Política e de Comunicação em Situações de Crise. Explica o comunicado do Governo que ao tomar posse, “o Governo se deparou ‘com uma dificuldade que existia perante fenómenos de crises graves, fossem eles de que origem fossem, porque não existia um processo planeado de coordenação política’. A ausência desse planeamento conduzia inevitavelmente ao improviso: ‘Quando não se têm processos planeados, a alternativa é improvisar, quer esse processo de coordenação política, quer o processo de comunicação.’ E, por isso, este manual institui o Centro de Operações do Governo (Corgov) que ‘será ativado pelo primeiro-ministro perante uma crise grave, seguindo o guião definido pelo Executivo’. O manual abrange ‘crises de ordem natural, de origem humana, cibernéticas ou digitais, e físicas’, permitindo ao Governo responder com maior rigor e previsibilidade.”

No seu vídeo apagado, Leitão Amaro diz-nos que o manual Corgov estará a ser usado para a resposta à tempestade Kristin. Se assim é, o que está então a falhar? Onde está o rigor e a previsibilidade que o manual asseguraria?

Este manual não é do conhecimento público - tem a classificação de “confidencial” - e assim não conseguimos perceber se o manual está mal feito ou se está a ser mal seguido. Ambas as hipóteses são preocupantes.

Os próximos dias são fundamentais e o Governo tem a oportunidade de se corrigir e de mostrar que tem efetivamente um planeamento e que não está a gerir a crise de improviso.

Líder parlamentar do Livre

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