O governo falhou e é preciso dizê-lo

Eduardo Cabrita, ministro com telhados de vidro, a acusar a oposição (de direita) de não ter dito nada quando se flexibilizaram as regras no Natal e a sentenciar que, por isso, não pode criticar agora, é uma nova forma de censura que levada a sério iria mudar a política para sempre. Ficaria a oposição obrigada a apresentar alternativas para tudo o que fizesse o governo, alternativas que teriam de ser acompanhadas de crítica fundamentada às propostas do executivo, para que essa crítica pudesse ser repetida no momento que o governo falhasse. Viveríamos em berraria constante.

Mas, se existe uma regra que só permite a crítica ao governo no momento em que o governo falha, se tiver havido essa mesma crítica no momento em que o governo decidiu, eu vou a jogo, os especialistas em saúde pública vão a jogo, os médicos das diferentes especialidades vão a jogo, os professores vão a jogo, os alunos vão a jogo... muita gente pode ir a jogo!

Quando o governo anunciou a flexibilidade das regras, estranhei e critiquei o facto de essa flexibilidade ter sido alargada ao fim de semana de 26 e 27, porque permitia que durante quatro (4) dias toda a gente pudesse andar por todo o país em ajuntamentos sem limite de pessoas.

Os médicos de saúde pública que, semana após semana, defendem que o rastreamento é absolutamente crucial e criticam que eles não sejam feitos na quantidade que é absolutamente necessária.

Os médicos de diferentes especialidades que, desde março, chamam a atenção para o facto de os doentes não covid estarem a ser abandonados pelo Serviço Nacional de Saúde, por decisão governamental.

Os professores que estão numa nova linha da frente e a quem foram prometidos testes rápidos que nunca chegaram e são prometidos novamente e que se juntam aos alunos carenciados que aguardam pelo cumprimento da promessa, feita por António Costa em abril do ano passado e repetida a toda a hora pelo ministro da Educação, de fazer chegar computador e internet a quem dele precisa para trabalhar em condições de igualdade.

A gestão desta pandemia tem sido errática em muitos aspetos e os portugueses já não acreditam na forma ameaçadora como o Estado tem lidado com eles. Lembram-se de que, a meio de dezembro, o decreto presidencial de um novo estado de emergência passou a prever o crime de desobediência para nem cumprir as regras, a sensação com que fiquei é que foi exatamente a partir dessa altura que o não cumprimento atingiu níveis nunca vistos. Agora, o primeiro-ministro aposta em ir à carteira dos incumpridores, duplicando as coimas, pensando, talvez, que os portugueses têm mais amor ao dinheiro do que à saúde e à liberdade.

Esta ideia de que em crise é preciso baixar o tom da crítica ao governo é que não pode prevalecer. Felizmente, ao consenso mais alargado para aprovar o último estado de emergência correspondeu igualmente uma crítica generalizada da oposição, com argumentos diferentes, como convém. O governo falhou e é preciso dizê-lo, porque essa é a única forma que temos de ajudar quem nos governa a errar menos. Até porque quem paga esses erros somos nós.

Jornalista

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