O que tem vindo a acontecer em vários bairros da periferia da capital, nos últimos dias, é uma onda de vandalismo injustificável, que não pode ser tolerada num estado de direito. Em democracia, os protestos violentos não são aceitáveis, ponto. Todos são livres de se manifestar, mas os atos de violência contra as forças de segurança e a destruição de propriedade pública e privada não podem ser aceites como normais, independentemente da justiça, ou não, das razões invocadas para esses protestos. Num país livre, quem recorre à violência já perdeu qualquer razão que eventualmente pudesse ter..Dito isto, estes atos não surgem do vazio. O que leva a que alguns habitantes de bairros ditos “problemáticos” incendeiem autocarros e apedrejem agentes da polícia? A maldade dita inata de alguns, a alegada brutalidade de outros, a indiferença de quase todos? Duvido que a resposta seja assim tão simples. Se queremos realmente que estas situações não ocorram, temos de olhar a sério para as suas raízes..Em primeiro lugar, não é normal que um agente da polícia dispare contra um cidadão, matando-o com dois tiros. Importa esclarecer, sem sombra de dúvidas, o que de facto aconteceu. O inquérito em curso, a cargo da Polícia Judiciária, vai permitir saber se Odair Moniz estava ou não armado, se ameaçou a vida do agente da PSP e se o recurso à força letal, por parte deste último, foi justificado. Sendo que o agente tem direito à presunção de inocência, tal como o próprio Odair Moniz..Por outro lado, importa saber se os nossos polícias têm a formação adequada para saberem como lidar com situações mais tensas, em que temam pela sua segurança. E estava este agente, que segundo foi noticiado tem menos de dois anos de profissão, devidamente preparado para enfrentar o ambiente tenso que se vive em alguns bairros que circundam a capital? E o investimento que tem sido feito na formação e na capacitação das forças de segurança tem sido adequado?.Por fim, não adianta fazer de conta que não há aqui um elefante na sala, que é o gravíssimo problema social nas periferias de Lisboa e Porto. Se Odair Moniz vivesse num qualquer condomínio de Lisboa ou Cascais, ou num bairro de classe média ou média-alta, alguém acredita que os seus vizinhos incendiariam veículos e atacariam a polícia à pedrada? A morte deste cidadão está a servir de rastilho a um barril de pólvora que existe nos bairros que circundam as grandes cidades. A criminalidade, nomeadamente a pequena delinquência, não se pode combater sem entender primeiro os problemas sociais que lhe estão subjacentes. A repressão policial nunca pode ser encarada como a principal solução. Pelo contrário, é a solução para quando falha tudo o resto: a família, a escola e a comunidade. Onde falhámos, como país, para que haja jpvens a incendiar autocarros nas nossas cidades? Esta deve ser a grande questão.