A queda de Zhang Youxia e Liu Zhenli, confirmada este fim de semana, é uma falha sísmica no coração do regime chinês que coloca o país numa fragilidade institucional sem precedentes. As acusações formais de violações disciplinares ocultam o que, segundo relatos não-confirmados em círculos dissidentes e análises especulativas, poderá ter ocorrido a 18 de janeiro no Hotel Jingxi: uma alegada tentativa de golpe abortada.Independentemente da veracidade destes rumores, impossíveis de confirmar num sistema opaco, o simples facto de ganharem tração revela a perceção de que algo profundo se quebrou no pacto militar-partidário. Se o cenário for real, a dissuasão nuclear e a estabilidade do regime revelam-se vulneráveis; se for apenas uma purga inflacionada, Xi terá atingido um grau de paranoia tal que a única forma de remover um aliado de sempre é colá-lo ao crime mais hediondo, destruindo a coesão do comando militar.Para compreender a magnitude do evento, é preciso caracterizar a importância da Comissão Militar Central (CMC). No sistema chinês, o Estado é secundário e o Partido é soberano, mas o Partido só governa porque controla as armas através da CMC. É ali que a ideologia se transforma em capacidade operacional e onde a autoridade política se converte em poder coercivo.Quando Xi elimina a chefia operacional e ordena a detenção de milhares de militares, não está apenas a combater a corrupção; está a reconfigurar a própria arquitetura do poder, substituindo a continuidade institucional por um controlo pessoal absoluto. Ao sacrificar Zhang Youxia, Xi remove a última barreira psicológica da elite: a mensagem é que nem décadas de lealdade garantem a sobrevivência. Com este gesto, o líder isola-se no topo, reafirmando que não há parcerias, apenas submissão. Agora, é só ele quem manda.O motor deste conflito pode residir num tabu político: a hipótese de um plano de sucessão hereditária de Xi Jinping. A resistência militar a uma eventual deriva dinástica, personificada em Zhang Youxia, terá precipitado o confronto. Alguns analistas independentes apontam como sinal inquietante a redução drástica do tráfego aéreo comercial sobre a região de Ningxia, onde residirá o putativo sucessor, agora protegida por um cordão sanitário de segurança.Esta crise mergulhou o país numa paralisia estratégica total, visível no receio dos mercados. As quedas acentuadas nas ações de gigantes da Defesa como a AVIC e a Norinco parecem refletir menos o medo da guerra e mais a incerteza sobre quem detém o controlo da cadeia de comando, num momento em que dispositivos de comunicação foram confiscados e as tropas congeladas.Esta crise explode num péssimo momento internacional. Com a Venezuela em reconfiguração e a escalada regional a aproximar-se de um confronto com o Irão, a margem de erro de Xi estreita-se. A China vê-se pressionada externamente, reagindo com notas diplomáticas invulgarmente duras que condenam a ingerência estrangeira em questões de Segurança Nacional, numa tentativa de associar a instabilidade interna a ameaças externas. Um líder que não confia nos generais que guardam o seu arsenal nuclear é um líder encurralado. E a história ensina que líderes encurralados tendem a cometer erros de cálculo fatais, capazes de incendiar não apenas o Estreito de Taiwan, mas toda a ordem global. O crepúsculo dos generais sugere que o centro de gravidade do poder chinês entrou numa fase de turbulência em que cada bala política disparada por Xi enfraquece o Exército de que precisa para o seu sonho chinês.Este tipo de convulsões, embora frequentes em regimes autoritários, envia um sinal de inquietude aos apologistas destes sistemas e impõe reservas aos especialistas que, cegos pelo determinismo, acreditam que o trajeto da China rumo à liderança mundial é um destino garantido e imune às falhas humanas do poder absoluto. No fim, até os impérios mais disciplinados descobrem que o crepúsculo começa sempre dentro das muralhas. Analista de Estratégia, Segurança e Defesa