Novo manifesto a favor da leitura

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Através desta cónica despeço-me dos leitores, apesar de não ter noção se as mesmas despertaram leituras assíduas. Durante mais de dois anos escrevi, sobretudo, sobre educação, esforçando-me para que as minhas opiniões tivessem sustentação científica. Pertenço ao grupo daqueles que considera que existe demasiada doutrina em relação à educação e de que não há nada mais prático do que uma boa teoria assente em dados empíricos, de preferência em larga escala. Sou daquelas que acredita no poder da educação como forma de elevador social. E no papel da cultura como forma de mediar os impulsos biológicos mais básicos como o medo ou a agressividade.

Sou, ou era, porque a realidade, atualmente, insiste em desacreditar-me. Recentemente li um livro, A hora dos predadores de Giuliano Empoli, que retrata de forma assustadora os tempos atuais. Estamos a viver uma época de predadores onde as leis primitivas da força parecem ganhar relevo face às frágeis leis internacionais que a espécie humana elaborou após os horrores da Segunda Guerra Mundial. Basta pensar na guerra da Ucrânia e os massacres da Palestina, e nos recentes acontecimentos nos Estado Unidos da América. Apesar de há décadas a psicologia social ter demonstrado como os processos de categorização deformante está por detrás da desumanização do grupo alheio, o percurso de desumanização tem-se imposto já que o inimigo de uma guerra é sempre "um ninguém".

Os predadores ganham muita força com a manipulação de informação, inventando histórias de conspiração e inimigos. Se a manipulação não é uma novidade na história da ascensão e exercício do poder, já o seu alcance tornou-se verdadeiramente multiplicativo com os algoritmos das redes sociais. O alcance pode tornar-se ainda maior quando toda uma geração está condicionada às redes sociais, aos vídeos de curta duração e onde lentamente o processamento visual se começa a sobrepor ao verbal, com fortes consequências sobre a capacidade de pensar e de fazer juízos críticos.

Também no nosso pequeno “quintal”, podemos ver os mesmos fenómenos a evoluir. Essa evolução pode ainda acentuar-se se não apostarmos a sério na leitura e na reflexão crítica. Se olharmos, no entanto, para os dados do PIRLS e do PISA, uma percentagem significativa de crianças do 5.º ano e de jovens 9.º ano tem dificuldades na leitura. Alguns nunca chegaram a entender o código escrito e não têm fluência leitora. Como tal focam a sua atenção na descodificação sem disporem de espaço mental para compreender. Outros apesar de dominarem o código, não conhecem vocabulário, não são ensinados a fazer inferências e não são capazes de ir além dos aspetos literais, pelo que têm dificuldade em integrar os vários elementos do texto ou de fazer análises e juízos críticos sobre o seu conteúdo.

O fraco desempenho em leitura reflete-se necessariamente na aprendizagem e terá sem dúvida impacto no insucesso escolar. Frequentemente estes jovens e crianças com dificuldades na aprendizagem da leitura, e no uso da leitura para novas aprendizagens, são oriundos de famílias desfavorecidas onde a leitura não faz parte dos seus hábitos. E de facto o relatório deste ano do Conselho de Educação evidencia como o insucesso está ligado ao nível socioeconómico. Quando se comparam as percentagens de retenção, estas são significativamente superiores para as crianças com apoio social quando comparadas com aquelas que não são apoiadas. Por outro lado, só 48% dos jovens de nível socioeconómico desfavorecido que concluem o secundário prossegue para o ensino superior.

Estes dados permitem-nos tirar várias conclusões. Em primeiro lugar, tornam evidente que a escola está a deixar de conseguir cumprir o seu papel de elevador social. Também confirmam que é necessário alterar pedagogias e práticas na forma de ensinar de maneira a não deixarmos tantas crianças para trás ao nível da aprendizagem e na compreensão leitora. Cuidar da leitura é, nesta época de predadores, uma urgência nacional se queremos formar adultos com capacidade plena para exercer a sua cidadania. Neste sentido, a leitura tornou-se uma urgência nacional para defender a democracia. Da mesma forma que no tempo da pandemia era urgente encontrar uma vacina e uma cura, hoje mais do que nunca precisamos da leitura como vacina contra as tendências autoritárias que estão a surgir na sociedade.

Escritora e Professora no Ispa – Instituto Universitário

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