Não dá para ser neutro entre a democracia e quem a quer destruir

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Assistimos a uma mudança muito rápida e drástica da ordem mundial. O desrespeito pelas regras, a desconsideração (ou até o ódio) ao outro, a imposição da lei do mais forte crescem em vários países e vieram alterar o equilíbrio a que nos habituámos em democracia e na configuração mundial nas últimas décadas. Ao bullying institucional é preciso responder com força institucional. E não é o que tem acontecido. A resposta dentro de fronteiras e internacionalmente tem sido de perplexidade, às vezes de encolher de ombros e de tentar fingir que tudo isto é normal. Mas não é e toda a gente vê que não é.

A melhor forma de combatermos o populismo e este bullying institucional a que vimos assistindo é não o negarmos, é reconhecermos que existe e que é inaceitável. Até para ser conseguido algo que é muito importante no combate ao populismo: a confiança das pessoas. Quanto mais verdadeiros forem os líderes sobre a situação que vivemos e os seus riscos e quanto mais fiéis forem a valores concretos, mais as pessoas terão confiança neles e no sistema democrático.

E, por isso, ressoaram tanto em todo mundo e em tantas pessoas as palavras do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, que veio dizer em Davos que estamos perante uma rotura da ordem mundial e que já não é possível aceitar que as regras do direito internacional estão a ser cumpridas. Que é preciso encarar de frente que o mundo mudou e que é preciso uma reorganização e alianças entre os países para fazer face aos mais fortes e que se querem impôr pela força. E que essas alianças devem ser baseadas naquilo que nos continua a guiar (e que não podemos deixar que outros destruam): o respeito pelos Direitos Humanos e pelo direito internacional. Esta honestidade na análise da situação mas também a apresentação do caminho - que é difícil mas claramente baseado em valores - foi algo muito importante.

Infelizmente não é esta clareza que temos visto no primeiro-ministro de Portugal. De um “Não,é não” (que foi um sinal muito importante na altura), Luís Montenegro tem deixado cair a barreira do não. Tem assumido muitos dos temas e da perspetiva da extrema-direita na sua governação, até usando as mesmas palavras. Tem normalizado a relação com o partido que diz abertamente querer acabar com este regime, que abandalha as instituições e que promove ativamente o ódio. E tem contribuído para a ideia de equivalência entre a extrema-direita e os partidos da esquerda, corroendo aquilo que nos devia unir a todos que é o respeito e a salvaguarda da democracia.

E agora faz o mesmo nesta segunda volta da eleição presidencial: entre António José Seguro e André Ventura, Luís Montenegro escolhe não se posicionar, nem posicionar o PSD. Felizmente vemos muitas pessoas do PSD chocadas e a assumir o apoio a Seguro, como qualquer democrata, qualquer pessoa que ponha o país em primeiro fará. Hoje, na reunião do Conselho Europeu, imagino que Luís Montenegro tenha dificuldade em explicar aos seus parceiros europeus - incluindo os que estão a ser diretamente ameaçados por Trump - que não se posiciona na escolha entre um europeísta e alguém que é aliado de Trump.

Nesta altura em que tanto está em jogo, no nosso país e no nosso mundo, precisamos de líderes que assumam as situações com clareza, que unam esforços com quem partilha valores fundamentais para construir um caminho baseado nesses valores. Não é o que Luís Montenegro tem feito, com risco para todos nós.

Líder parlamentar do Livre

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