Morrer à espera de uma ambulância

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"Não havia ambulâncias na Margem Sul para dar resposta.” A frase é de Luís Mendes Cabral, o atual presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), ao comentar a morte de um homem de 78 anos, na terça-feira passada (6 de janeiro), no Seixal depois de esperar cerca de três horas por assistência na Aldeia de Paio Pires, localidade que fica a 15 quilómetros do Hospital Garcia de Orta (Almada).

O caso concentrou as atenções mediáticas durante o dia de ontem e tornou-se mais um tema para a fogueira em que está a arder o INEM desde há muito tempo.

Ontem, falou-se no novo sistema de triagem, que o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar quer ver suspenso. Já o INEM garantiu que a sua resposta foi “dada dentro do prazo” e que fez o seu trabalho, pois “fez a triagem, que está correta, e fez pedido de ambulância ao fim de 15 minutos”.

Mas o ponto essencial e que deveria merecer muita atenção é apenas este: uma pessoa morreu porque esperou três horas por uma ambulância.

Aos familiares - deste idoso e de outras pessoas que têm ficado à espera de socorro, como denunciou o presidente do sindicato, Rui Lázaro - não interessam discussões sobre algoritmos ou sistemas de triagem. Esperavam era que a situação não tivesse acontecido. E que a justificação não fosse: não havia ambulâncias disponíveis na Margem Sul.

Provavelmente será essa a conclusão do inquérito que as Atividades em Saúde (IGAS) anunciou ter aberto. Ou seja, há uma grande possibilidade de ninguém ser responsabilizado por esta morte. O que, infelizmente, nem é caso raro.

Ou então a culpa será dos hospitais, que não têm camas para receber todas as pessoas que os procuram - sabendo-se que existem, por exemplo, duas mil pessoas que não deveriam estar nestas unidades de saúde, mas que não têm outro local para ser internadas -, o que obriga os veículos dos bombeiros a ficarem nos parques de estacionamento com os doentes nas suas macas.

Nunca será da falta de planeamento na área da Saúde, da ausência de médicos de família e de centros de saúde abertos mais horas para responder a casos menos críticos - como gripes mais fortes -, nem do facto de o país nunca ter sido capaz de redimensionar a sua rede de socorro às exigências de uma sociedade que se mudou para os grandes centros urbanos.

A verdade, todavia, é que situações como a do Seixal - que reivindica há anos um hospital no concelho - continuam a existir. E isso deve envergonhar qualquer responsável, político ou não, ligado à Saúde.

Editor executivo do Diário de Notícias

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