Insistir em 2024

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São as passas ao bater da meia noite, a roupa interior que se estreia e as pancadas, na rua ou à janela, em tachos e panelas. Há quem faça questão em subir a uma cadeira com o pé direito e quem não dispense um punhado de moedas na mão. Nesta altura, não faltam tradições, previsões e promessas, tudo por um bom ano, por sorte, felicidade ou fortuna. A conversa não muda muito. Todos queremos que o ano que agora começa supere o anterior, que seja o arranque de algo novo, que tudo se componha. No entanto, os palpites são mais complicados que o habitual.
Pelo mundo, sobram guerras, crises económicas e uma inédita ameaça climática a que cada vez menos conseguem ficar indiferentes. Por cá reina, literalmente, o desgoverno. Eleições marcadas, partidos a aquecer as máquinas para uma campanha eleitoral que não se prevê edificante e sondagens com números que se fossem transpostos em previsões meteorológicas só fariam antever uma coisa: borrasca. Com PS e PSD demasiados próximos para que se aponte um favorito, a extrema-direita perto do topo como nunca e a esquerda dispersa, no horizonte mais facilmente encontraremos um embate entre blocos que estabilidade governativa. Há quem sonhe com o PS em posição de governar, outros que torcem por uma contundente vitória da nova versão da velha aliança entre PSD e CDS e ainda há os saudosos da Geringonça. Também haverá quem sonhe com o Chega em posição de influenciar o rumo da governação do país, mas nesse ponto prefiro acreditar que serão muitos mais os que se arrepiam com tal cenário. Como nunca, aplica-se a velha piada do mundo da bola, o melhor é mesmo guardar os prognósticos para depois do jogo. Relembro os números da última sondagem da Aximage, realizada para DN, JN e TSF, para que não restem dúvidas: 46,4% das intenções de voto para o somatório dos partidos de direita, 44,9% para a esquerda e 48% dos inquiridos antecipam instabilidade em vez de bonança após as eleições de março.
Por tudo isto, evito previsões e antes recuo a um velho discurso de Barack Obama para embalar 2024. “Fácil nunca nos foi prometido, mas temos tido fé, o tipo de fé que nos diz que não podemos deixar de marchar”, disse o então presidente norte-americano. Em 2011, no encontro entre os congressistas negros norte-americanos, Obama ainda dava os primeiros passos enquanto chefe de Estado, mas já dizia não ter tempo para autocomiseração e antes prometia insistir, “com firmeza e determinação”, na busca de igualdade, mais emprego e prosperidade para os norte-americanos. Mas foi outra frase que me fez lembrar o discurso: “O futuro premeia quem insiste”. Que assim seja, que por cá consigamos insistir em 2024. Fácil não será, mas facilidade também é coisa que raramente nos foi prometida. 

Subdiretor do Diário de Notícias

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