Não é possível apreciar o quadro atual de ameaças à segurança internacional sem ponderar a circunstância de que vivemos num mundo de desafios. Num mundo crescentemente perigoso, imprevisível, marcado por ameaças e riscos globais, no caos geopolítico. .A incerteza é a palavra-chave, resultando de matriz multivariada de elementos de instabilidade e de entropia. .Incerteza e imprevisibilidade associadas à mãe natureza: causadas pelo aquecimento global, alterações climáticas e pandemia de covid-19, que até janeiro de 2023 causou mais de sete milhões de mortos em todo o mundo..Incerteza emergente da radicalização política, ideológica e religiosa. Equacionando a paz, a estabilidade e a segurança. Com sequelas económico-financeiras e implicações para a sociedade e o bem comum..Atente-se na guerra de agressão que decorre no Leste Europeu – agora com o jus ad bellum a escalar o conflito para o território do Estado agressor – e a velha crise no Médio Oriente..Mais de 30 anos depois da violenta secessão na antiga Jugoslávia, a guerra voltou à Europa. Desde fevereiro de 2022, prosseguindo a ideologia ultranacionalista e imperialista, a Rússia não deteve a política de guerra híbrida. Com ações tipicamente militares, campanhas de desinformação e propaganda – recorrendo às palavras como (outras) armas – fake news, ciberataques DDoS –, deep fakes produzidas por inteligência artificial e espionagem. Impondo a desestabilização económica e social sobre a Europa e o mundo. Tentando influenciar, a seu favor, processos eleitorais em países estrangeiros. At the end of the day, it is all about ideology..O Kremlin procura contrariar o Ocidente em prol de um xadrez global multipolar. Preconiza sociedades iliberais, onde seja capaz de exercer liderança. Pelo menos na aparência, senão também na essência, essa é a razão que justifica o apoio da Rússia a amplos setores da extrema-direita europeia, que pugnam contra as tendências globalistas para preservarem as soberanias nacionais e a sua identidade cultural..A relação entre o regime de Moscovo e a dita extrema-direita europeia configura um casamento de conveniência estratégica. O suserano russo representa o ícone de um líder conservador forte, defensor da tradição e opositor do Ocidente em decadência..Inter alia, são estas algumas das conclusões do livro, publicado em abril pelo Centro Internacional Contra-Terrorismo (ICCT), intitulado Russia and the far-right – insights from 10 European countries. A influência subversiva da Rússia em segmentos da extrema-direita de nove Estados-membros (EM) da União Europeia (UE) e na Sérvia. Mas com ou sem influência externa, a extrema-direita cresce significativamente no Ocidente, a jusante dos 10 países retratados na obra do ICCT. Com narrativa sustentada nas causas de incidentes violentos e nas tensões ideológicas associadas. A reboque de argumentação estribada nos malefícios e perigos que decorrem dos recentes fluxos de migrantes e refugiados..Suspeitas de suborno de deputados do Parlamento Europeu estão sob investigação. Tentativas de corromper e minar a coesão e a unidade da UE, enfraquecendo possíveis acordos para apoiar o esforço militar da Ucrânia na luta contra a agressão da Rússia, que viola as regras do direito internacional e a Carta das Nações Unidas. .A Agência da UE para a Cibersegurança e o Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE) iniciaram avaliação conjunta das ameaças relacionadas com a interferência e manipulação de informação estrangeira (conhecida pelo acrónimo FIMI – Foreign Information Manipulation Interference, proposto para refinar a definição de desinformação). Em julho de 2022, o Conselho da UE concluiu sobre a importância de combater o FIMI, em conjunto com as ameaças híbridas e as ciberameaças. .A 3 de maio, o Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança condenou veementemente a campanha cibernética maliciosa da Rússia, que recorreu ao seu grupo de espionagem eletrónica APT28 (Advanced Persistent Threat) contra a Alemanha e a República Checa. O APT28 atacou endereços eletrónicos afetos a um partido político germânico e infraestruturas institucionais checas de comunicação e informação. .O mesmo grupo de espionagem eletrónica já atacara infraestruturas críticas da Polónia, Lituânia, Eslováquia e Suécia e, repetidamente, da Ucrânia. .Esse ator de espionagem cibernética terá interferido nas eleições presidenciais dos EUA em 2016, comprometendo a candidatura da representante do Partido Democrata. .Em 2020, a UE sancionou indivíduos e entidades responsáveis pelos ciberataques cometidos em 2015, com recurso ao APT28, contra o Parlamento Federal Alemão..A UE considera que a maliciosa e subversiva campanha cibernética atesta o continuado padrão de comportamento irresponsável da Rússia no ciberespaço. Visando instituições democráticas, entidades governamentais e infraestruturas críticas. E essa atividade é tanto mais corrosiva e desestabilizadora da democracia quanto é certo que em 2024 haverá eleições em mais de 60 países..Trinta meses depois da invasão da Ucrânia, não há solução de paz visível no horizonte. E, pontuando a incerteza agravada, há um conjunto superveniente de questões que se colocam e inquietam o cidadão comum: .O que sucederá se a Rússia vencer a guerra? Sobreviverá a Ucrânia enquanto Estado independente e soberano? Poderá a Ucrânia aderir à UE? .Os Estados Bálticos, outros países do Norte da Europa e restantes países do Leste Europeu estarão seguros? (nomeadamente aqueles que estiveram na órbita do Pacto de Varsóvia). Estará a Europa segura no seu todo?.Intervirá a NATO contra a Rússia para proteger esses países? (alguns são membros da NATO e, nos termos do artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, um ataque contra um ou mais membros será considerado um ataque contra a Aliança)..Nesse caso, a resposta da NATO significará a III Guerra Mundial? Implicará um conflito nuclear, fatal para a subsistência da Humanidade?.O outro foco de radicalização político-ideológica e religiosa que produz tensões globais fortíssimas é o conflito que grassa no Médio Oriente. Não começou em outubro de 2023, desencadeou-se muito antes. E, entretanto, o governo de Israel prossegue a ofensiva sobre Gaza. Veremos as consequências da recente proposta americana de cessar-fogo..Esse conflito é um óbvio catalisador poderosíssimo para o alastramento da ameaça terrorista global, incluindo os atores solitários. Confesso alguma (agradável) surpresa face ao relativamente escasso volume de conspirações terroristas e atentados desde que as hostilidades recrudesceram no Médio Oriente. .Descambará a crise no Médio Oriente numa guerra regional? O terrorismo alastrará pelo globo devido à escalada do conflito? .Uma derradeira questão, cuja resposta afetará o curso e desfecho dos dois conflitos, no Leste da Europa e Médio Oriente: qual será o resultado das eleições presidenciais nos EUA em novembro próximo?....Na sociedade de comunicação e de informação massiva de hoje, encontrar o ponto de equilíbrio entre a ignorância, o alarmismo e o pânico não é tarefa fácil. É preciso encontrar instrumentos de comunicação estratégica orientados para difundir informação fiável junto da opinião pública, contrariando nocivas campanhas de desinformação..Coordenador de investigação criminal na UNCT/PJ e conselheiro de Justiça e Segurança Interna na REPER.