Goa: Bicholim do meu tempo

Pouco se tem falado de Bicholim, Goa. Faz parte das chamadas Novas Conquistas, parte Norte e Este de Goa. Estas parcelas foram um osso duro de roer para os colonizadores portugueses. Shivaji, Bhonsle, Ranés e outros não deram descanso com as suas incursões, pilhagens, açambarcamentos e outras tropelias.

Em Novembro de 1683, Sambaji, filho do marata Shivaji, fez uma incursão, cercando praças e fortes do Norte de Goa a ponto de o conde de Alvor se mostrar impotente perante o invasor, tendo Goa ficado salva por o Sambaji ter-se retirado para "acudir as fronteiras dos seus estados, que haviam sido invadidos por um numeroso exército dos mogóis. Se não fora esta coincidência, Goa talvez caísse em poder dos maratas..." (Historia de Goa, por Pe. Gabriel de Saldanha - vol. I, pág. 174, Livraria Coelho, 1925).

Mais tarde, em 1739-1740, Goa só se livrou de ser ocupada pelos maratas por meio do pagamento duma grande indemnização de guerra, a maioria da qual foi conseguida através de empréstimos e taxas forçadas pagos pelos hindus locais, "porquanto os cristãos nativos (e muitos dos portugueses) estavam demasiado empobrecidos para contribuírem com qualquer quantia substancial". (Império Marítimo Português 1415-1825, por C. R. Boxer, pág. 142 - Edições 70.) Bicholim, portanto, sofreu de todas esses vitupérios, demandas, incursões e atentados nativos.

A Província de Bicholim foi pela última vez conquistada só em 1781 pelo vice-rei D. Frederico Guilherme de Souza ao Bounsuló. "Contudo, ainda depois da conquista definitiva, os ranes (casta guerreira), insistindo na sua ideia de serem senhores directos e dominantes da província, organizaram numerosas e temíveis quadrilhas de salteadores e revoltaram-se, a pretextos fúteis, mais de 17 vezes até 1897, quando terminaram, no governo do general Joaquim Machado (Saldanha, p. 328).

Apesar de ter percorrido vários pedaços do globo, trago Bicholim perto do coração. E, não obstante encontrar-me radicado em Portugal há mais de 65 anos (vim para a Universidade de Coimbra em 1956), trago vivas as recordações de Bicholim, que venho aqui partilhar e lembrar quão felizes foram esses tempos, de salutar paz e convivência entre as três comunidades de hindus, cristãos e maometanos, harmoniosamente entrelaçadas.

Fiz a quarta classe em português na escola primária da vila de Bicholim, onde também estudaram os meus irmãos. É em Bicholim que o meu saudoso pai exerceu uma pujante e muito recorrida advocacia por mais de 55 anos. Às segundas-feiras, a vida começava em Quitula, Aldonã, (Concelho de Bardez) onde se situa a minha Casa-mãe. Um nosso capataz, o Lulú, levava-nos de canoa, pelo braço do Mandovi que serpenteava entre as luxuriantes bandas de Cançá, Bodiém, até Tivim onde despontava o estaleiro de serração de madeira do sr. José Maria, também proprietário de uma farmácia. Aqui, aguardávamos o camião, que vinha de Mapuça e, percorrendo Sirçaim e Assonorá, atingíamos o centro de Bicholim.

Bicholim era o ponto estratégico do norte de Goa e o pulmão da sua pujante indústria, comércio, agricultura e silvicultura. A vila era ampla, plana e pouco acidentada. No largo, dominado por uma enorme árvore de gralha, despontava o quartel da polícia/tropa e a cadeia comarcã. Depois via-se a igreja, a escola primária e o novo tribunal. Na ala direita havia lojas com as suas especialidades. A do sr. Pednecar, que vendia valores selados e artigos de papelaria. Ao lado, um restaurante (Kannavol) do sr. Rogló, amado por preparar um chá único a ponto de ter fregueses vindos de distante Goa só para o saborear. Às sextas apresentava um xacuti de excelência. Logo a seguir um gabinete de leitura de livros e jornais em marata. E depois a loja que a petizada adorava por sempre estar abastecida de gomas e chocolates. Julgo tratar-se da loja do sr. Narvencar. Em seguida, uma farmácia, oficinas de ourives e um bar, terminando com lojas do sr. Dhond a vender fazendas e roupas. São de salientar dois estabelecimentos, o do sr. Savoicar, muito bem apetrechado de roupas, fazendas e saris, e o do sr. Babu Naique que, explorando um serviço de transportes de camiões, tinha ligações com a vizinha Índia (Dodamarog), pelo que estava bem abastecido de produtos dessa zona de espaço. No lado oposto, o edifício da câmara municipal e muitas moradias. O edifício da escola primária era amplo, bem iluminado e arejado. Tinha duas salas de aulas, uma delas sob magistério da saudosa professora Ilda Coelho. Da minha carteira via o movimento nos cartórios do tribunal vizinho e sempre me conjeturei do que ali se passava.

Bem perto ficava a imponente igreja matriz, no cimo de um morro. A Igreja de Bicholim foi construída por D. Mateus de Castro, goês, natural da ilha de Divar, que havia regressado de Roma como Bispo de Crisópolis. É dedicada à Nossa Senhora da Graça, e foi edificada em 1652. No sopé desta igreja havia um poço que tinha no fundo uma curiosidade: um canhão de artilharia, que se dizia ser do guerreiro Shivaji (mais acertadamente, do seu filho, Shambaji), usado nas suas incursões sobre a vila.

A população de Bicholim era quase 96% hindu. Tem um templo de muita devoção e, semanalmente, faziam uma procissão que passava pela minha casa, com cânticos e rezas ruidosas.

Entre os hindus contavam-se os de labores menores como ourives, oleiros, comerciantes, agricultores. Mas havia famílias distintas. como os Dessais de Lamegão, proprietários de extensos feudos com a particularidade humanitária de oferecer diariamente uma refeição a quem dela necessitasse. Conheci, como amigos da nossa casa, dois filhos dessa ilustre dinastia, o Ramã, caçador de tiro certeiro tendo a seu crédito tigres e outros felinos, e o Vishnu, com a particularidade de nos visitarem para ler os diários em português. Na verdade, ambos falavam esta língua fluentemente.

Uma franja da comunidade era composta de maometanos que se dedicavam aos transportes públicos. Em tempos teriam sido muitos, a ponto de terem erigido no alto do morro da vila uma ampla mesquita, que estava já em ruínas.

Bicholim também albergava outras famílias distintas na História como os Lobato Farias, os Menezes e os Carvalhos, alguns deles com patentes elevadas no Exército.

Bicholim era o ponto estratégico do norte de Goa e o pulmão da sua pujante indústria, comércio, agricultura e silvicultura. A vila era ampla, plana e pouco acidentada.

Todas as quartas-feiras era a feira do concelho, que se reunia à volta do mercado e junto da escola primária, trazendo uma variedade de artigos como bugigangas, mobiliário, utensílios de cozinha, todo o tipo de objetos de barro e muita comezaina, como acontece em todas as feiras, mas aqui, com uma amplidão geográfica bem vasta, abrangendo artigos de distante Jua, Naroá e outras partes de Goa.

Porém, o grande provedor dos indigentes era o aglomerado industrial do sr. Zantié, que tinha quase o monopólio da indústria da castanha de caju, que exportava para os Estados Unidos da América. Qualquer um que precisasse de umas tangas ou rupias, dirigia-se ao estaleiro Zantié e dali trazia, previamente pesadas, umas embalagens de metal (latas de petróleo) com castanhas encascadas. Uma vez descascadas em casa, o interessado devolvia-as, logo recebendo um tributo em dinheiro, que aliviava as suas necessidades.

Foi nessa época que nos sujeitámos a racionamento do açúcar, petróleo, arroz e outros artigos, devido ao período da guerra, ficando, ricos e pobres, nas filas à espera da sua ração.

Foi também nessa altura que vimos pela primeira vez seres como nós, mas diferentes, com toda a pele preta e cabelo carapinha, falando uma estranha língua, vestidos de farda militar impecável - os landins.

Foi na governação do coronel Arnaldo Guedes Rebelo (1905-1907) que foi descoberto em Bicholim o primeiro jazigo de minério de manganés. Houve numerosíssimos pedidos de manifesto, a ponto de ser necessário criar, nos serviços de agrimensura, uma repartição especial para tratar destes assuntos de minas (Saldanha, pág. 305). Bicholim exportou para o Japão, Alemanha e outros países muito e rico minério de ferro e manganés.

Para finalizar e amenizar este relato que reporto de memória, refiro-me a três episódios que vivenciei e que demonstram o clima colonial da época.

1. Girando a vida em volta do Tribunal da Comarca, não admira que o preenchimento de uma vaga de Magistrado do Ministério Público (de Delegado) fosse um acontecimento ímpar para a vila. Primeiro, porque o regime colonial tinha o mérito de prover esses quadros com apenas licenciados em Direito pelas Universidades da metrópole. E nesta, havia apenas duas faculdades - a de Coimbra e a de Lisboa - a produzir esses letrados que, depois de um curso dificílimo e, inexplicavelmente muito exigente, preenchiam os quadros da metrópole, das ilhas e de todo o extenso Ultramar. Depois, o novo delegado era geralmente solteiro (e óptimo candidato para raparigas casadoiras - (ver December 18, 1961, de Dr. Fernando Jorge Colaço, pág. 138) - e com todo o poder criminal da Comarca nas mãos. Assim, a viagem do novo delegado, de Portugal para a comarca de Bicholim, feita então obrigatoriamente de barco (não havia voos), era acompanhada com vivo interesse e, neste caso particular, porque um funcionário do tribunal se arrogava ser aparentado do novo titular. E o senhor doutor chegou! Foi recebido calorosamente, sempre acompanhado de perto do dito funcionário. Dias depois, o senhor delegado, acompanhado da sua jovem irmã e do dito funcionário, dele aparentado, foram a Pangim para certos afazeres e dali regressaram de camião. Este autocarro, por atenção e gentileza ao ilustre magistrado, fez um desvio da via principal para levar os ilustres passageiros à casa onde o delegado e a sua irmã viviam. Nisto, tendo descido do transporte, o doutor delegado chama o funcionário acompanhante, seu aparentado e, sem mais questionar vibra-lhe, em presença de todos os passageiros, um valente murro na cara que o derrubou ao chão, causando mazelas. Escusado é descrever o tumulto que surgiu com tão inusitada ocorrência em meio pequeno e restrito. O que se teria passado? Soube-se, muito mais tarde, que o funcionário/parente possivelmente terá posto a mão ou o braço sobre a rapariga, que o magistrado achou acto atrevido e despautério abusivo. Não se tomaram providencias contra o agressor, como o ambiente colonial da época demandava!

2. Nessa altura, a Índia aguardava a sua libertação do jugo inglês e fervilhavam em Goa esses ventos de independência. Talvez para os coibir ou para mais acentuar a portugalidade da colónia, um superior cérebro iluminado de Pangim fez emanar uma directriz obrigando todos os funcionários do tribunal e de outras repartições, a usar os fatos e trajes europeus, sob penas disciplinares. Foi uma medida drástica e inapropriada para o contingente de funcionários hindus que tradicionalmente vestiam o seu pudvém e outros adereços nativos. Mas ordens são para ser cumpridas e assim vi o meu amigo e inquilino, Fottó, um ortodoxo e conservador hindu, transformado em vestes europeias, tropeçando nelas por falta de hábito e exercício. Desmandos do colonizador.

3. Noutro acontecimento hilariante surge a pretensão de um escriturário do meu pai. Hindu muito hábil, culto e inteligente, concorreu a um concurso para ajudante de escrivão. Havia provas escritas e práticas, como dactilografia, redigir um auto ou ofício, etc. a realizar na capital. Lembro-me de ele se ter afadigado muito para se preparar para estes exigentes exames. E foi desclassificado! O que para todos do ramo foi surpresa pois o candidato era competente e de valor. Certamente assim aconteceu por ser concorrente sem ajudas, cunhas ou pedidos. Tendo havido na vila colóquios e conciliábulos sobre a injustiça do júri, ficou assente que o preterido iria recorrer para o Conselho Superior Ultramarino, com sede em Lisboa. A reclamação seguiu os seus trâmites e eis que, passado tempo, o candidato recebe um telegrama vindo de Lisboa com estes lacónicos dizeres: "Regabo provimento". Ninguém ousava pronunciar-se porque o texto era manifestamente ininteligível. Teria havido erro na transmissão telegráfica? Confrontado com o singular e inaudito vocábulo "regabo", o chefe dos correios, senhor competente e amigo do candidato, depois de um minucioso inquérito, asseverou da veracidade da transmissão recebida, concluindo que de Lisboa teria vindo essa mensagem, ipsis verbis, com aquelas palavras, sem margem de erro. Era "regabo" no original, sem dúvida. Porém, os mais cultos da vila categoricamente desconheciam o termo e o sentido do vocábulo. Eis quando um amigo, muito sabedor e investigador, alentou que "regabo" em português arcaico era "recebo"! Sendo assim, o recurso merecera provimento. Foi de curta duração a alegria dessa singular interpretação. Confirmou-se que ao recurso tinha sido "negado provimento".

Juiz de Direito jubilado e jornalista
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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