Este país também é para novos

Publicado a
Atualizado a

Na semana passada fez furor a nomeação do novo primeiro-ministro francês. Afinal, com 34 anos, Gabriel Attal tornou-se o mais jovem na história da República Francesa a assumir o cargo. Em contramão, a média de idades dos candidatos a primeiro-ministro de Portugal nas próximas eleições legislativas supera os 45 anos. As competências destes homólogos são distintas, assim como as suas nomeações, mas, não obstante, seria possível Portugal ter um primeiro-ministro, ou um presidente da República, tão novo? Mais, que valor é dado aos jovens?

Antes de mais, há que definir o que é um jovem. Sobre isso, lamento informar quem tem dificuldade em processar o curso natural da vida, mas a definição do programa “jovens agricultores”, que considera jovem quem tenha a idade compreendida entre os 18 e os 40 anos, não conta. Consideremos, então, como definem as Nações Unidas, que são jovens aqueles cuja idade esteja compreendida entre os 15 e os 24 anos. Assim sendo, estes -- 10,4% da população --, estão esquecidos.

Para justificá-lo poderia discorrer sobre o desinvestimento nos professores, a inação perante o retrocesso nas aprendizagens, a incapacidade de reformar o sistema de acesso ao ensino superior, a inacessibilidade do mesmo (baixar as propinas não conta quando outros fatores, como a habitação, excluem potenciais estudantes das universidades), o desinvestimento na ciência e tecnologia, a taxa de 20,3% de desemprego jovem (6,3% acima da média da UE), ou até sobre o quase insultuoso pacote de medidas para os jovens que o Governo apresentou em setembro último (nenhum jovem deixará de emigrar porque se não o fizer devolvem-lhe as propinas). Porém, sejamos objetivos.

Respondendo diretamente à questão colocada inicialmente, nunca Portugal poderia ter um presidente da República com menos de 35 anos, pois a própria Constituição não o permite. Um primeiro-ministro, talvez. E existirá algum requisito de idade para exercer o cargo de deputado à Assembleia da República? Não. Porém, dos 230 deputados, já nenhum se pode considerar jovem e apenas 5 têm menos de 30 anos. Até os líderes da maioria das juventudes partidárias estão mais próximos de Attal do que dos jovens do seu partido. Todavia, esta ausência de jovens dos vários setores da sociedade não fica por aqui.

Nas universidades, os corpos docentes estão cada vez mais envelhecidos e sem grandes perspetivas de uma renovação geracional. Na sociedade civil, mal se veem jovens na direção de associações. Nos jornais, contam-se pelos dedos de uma mão os colunistas regulares com menos de 30 anos e, em grandes títulos, jovens só se encontram aqui, no Diário de Notícias. E estes são apenas alguns exemplos.

Exige-se mais. Em primeiro lugar, porque representação não é sinónimo de representatividade. Isso é evidente naquelas capas de jornal arrepiantes que se fazem com 50 líderes, todos brancos, todos com mais de 50 anos, e quase todos homens, como se fosse representativo do país. Em segundo lugar, porque como notou, e bem, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, os jovens trazem ideias muito necessárias “de mais sociedade civil, de mais abertura, mais abertura internacional, mais abertura de ideias, mais abertura em termos económicos, sociais, culturais e políticos” e, sim, são capazes de assumir cargos de responsabilidade. Aliás, sempre achei curioso as gerações mais velhas acusarem as gerações mais novas de irresponsabilidade. Isto, pois a verdade é que se não permitirem que os mais novos sejam responsabilizados, de facto, nunca serão responsáveis.

Conclui-se, assim, que pouco se tem em consideração a juventude. No entanto, num país estagnado há décadas, é um erro crasso os jovens continuarem a ser subestimados e negligenciados. Além disso, como a história nos demonstra, só reconhecendo e apoiando as capacidades e as ideias dos jovens seremos capazes de enriquecer a sociedade com novas perspetivas e com a inovação e a energia necessárias para solucionar os desafios contemporâneos. Ouvimos que esta é a geração mais qualificada de sempre, mas continuamos a não lhe dar oportunidades. Isso tem de acabar. Não é nem sustentável para o país, nem justo para esta geração. Ou melhor, caso não se tenham apercebido, este país também é para novos.

Mestre em Desenvolvimento Internacional e Políticas Públicas
Membro Fundador da All4Integrity

Diário de Notícias
www.dn.pt