Entre não dar ouvidos à ignorância e abraçar a diversidade

Publicado a

Não sei se é possível determinar a origem de uma expressão artística concreta como se fosse um organismo endémico, mas, tendo em conta as conversas que tenho tido com vários músicos, investigadores, construtores de instrumentos e melómanos em geral, a minha convicção é a de que, na arte, como em tudo o resto, as fronteiras são criações administrativas que as pessoas erguem. Será que um cão que vive algures na aldeia de Rio de Onor, em Bragança, sabe que tem uma nacionalidade diferente dum outro cão, que, a escassos dois metros dele, vive em Rihonor de Castilla, em Espanha? O exemplo é caricatural, mas leva-me a acreditar que não.

Defendo que as expressões, artísticas ou de outra ordem, ainda que sejam profundamente identitárias e possam retratar a pertença dum povo, nascem da pulsão natural de criar e de partilhar. Depois, nós, humanos, somos gregários e inventamos tribalismos.

No entanto, só porque eu componho algumas músicas, com determinadas características, isso faz dela portuguesa? E de que forma é que um qualquer outro português se identifica com a música que componho, mesmo que não goste dela?

Deste modo, o que é que é música portuguesa? E, de forma mais absurda e com uma perspetiva política, o que é que é arte de esquerda ou de direita?

Por exemplo, Xutos & Pontapés são uma banda portuguesa. Cantam em português e recorrem a instrumentos tidos como universais, como as guitarras elétricas que terão uma morfologia mais recente, mas que garantidamente têm uma origem ancestral em instrumentos acústicos que estão mais ligados a alaúdes, na sua génese, do que a qualquer outra coisa.

Escrevo isto exclusivamente para utilizar a expressão que recentemente aprendi durante uma conversa - que será reproduzida no DN em breve - com o músico, investigador e construtor Pedro Caldeira Cabral, sobre as diferenças entre o instrumento que é conhecido habitualmente como guitarra clássica ou viola, e a cítara ibérica, mais conhecida como guitarra portuguesa: “Funcionamento mecânico, vibroacústico.”

"Tudo vem de algum lado e terá nascido da diversidade, até (ou principalmente) o fado”.
"Tudo vem de algum lado e terá nascido da diversidade, até (ou principalmente) o fado”.Paulo Spranger

Claro que estamos a falar de categorizações de instrumentos a nível académico, porque é preciso perceber o funcionamento, as semelhanças mecânicas, tímbricas, materiais que os compõem e toda uma pletora de variáveis que não cabem neste texto.

De qualquer forma, percebemos que não foi por se erguer uma barreira à volta do alaúde ou da guitarra clássica que esta deu origem à guitarra elétrica. E também não foi por haver barreiras em torno das várias cítaras, desde a Córsega até à Inglaterra, que finalmente nasceu a guitarra portuguesa (ou, na preferência de Pedro Caldeira Cabral, cítara).

Até aqui, parece-me evidente que os instrumentos musicais ultrapassam qualquer ideia que se possa ter sobre identidade e acabam por ultrapassar dogmas, porque, no fundo, coletivamente, nós queremos é criar.

O mesmo aconteceu com o fado. Não vou, de todo, propor-me a escrever em meia dúzia de linhas a história do fado, até porque outras pessoas já o fizeram, como Rui Vieira Nery, no seu livro intitulado Para uma História do Fado (primeira edição em 2004), ou (retomando os ensinamentos sábios de Pedro Caldeira Cabral), os fados inscritos na obra Album de Musicas Nacionaes Portuguezas, escrito por João António Ribas em 1858.

Tudo vem de algum lado e terá nascido da diversidade, até (ou principalmente) o fado.

É por tudo isto que considero ignóbil que a deputada municipal do Chega Margarida Bentes Penedo, há uns dias, tenha exigido uma “cultura de direita”, argumentando que a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) tem sido financiada para, de forma opaca, permitir conteúdos artísticos, em particular os que dizem respeito ao Teatro do Bairro Alto, que reforçam “uma memória histórica centrada na esquerda revolucionária”.

Para apoiar esta ideia, Margarida Bentes Penedo citou os seguintes nomes, incluídos na programação do Teatro do Bairro Alto, com ar jocoso, como se estivesse a remetê-los para um lugar onde não merecessem estar: Marga Alfeirão, Myriam Lucas, Shaka Lion, Puta da Silva, Ana Borralho, Batuqueiras Finka Pé, Aho Ssan, Mohammed Abbasi, Sepideh Khodarahmi, Novelo Vago, Joëlle Léandre e Akira Sakata 4tet.

Por fim, depois de expor o quanto abominava esta programação, apenas com base no nome dos artistas e certamente sem conhecer os seus trabalhos, fez a apologia ao fadista João Braga, que tinha celebrado marcos na sua carreira com concertos no Teatro São Luiz e no Cinema São Jorge e, lembrou, não tinha sequer merecido a presença do presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, nesses espetáculos.

Se era a diferença que estava em causa, mostrando o quanto não aprecia estrangeiros, falhou em todos os argumentos, por absoluta ignorância.

Jornalista

Diário de Notícias
www.dn.pt