O projeto de orçamento do governo russo para 2025 prevê que os gastos com a defesa atinjam um valor recorde, na ordem dos 145 mil milhões de dólares americanos. O número exato é confidencial. Mas comparemos os dados oficias russos com os da Índia, que deverá injetar 75 mil milhões nas suas forças armadas no próximo ano. É muito significativo, e preocupante, que a Rússia, que tem uma economia que equivale a metade da indiana e uma população dez vezes inferior, decida despender um montante tão elevado na área militar. Um investimento dessa dimensão revela duas opções políticas, pelo menos: uma aposta na continuação da guerra de agressão à Ucrânia; e, por outro lado, a preparação para novos conflitos. Não se aumenta as despesas militares de mais de 25% quando se pensa apenas em defesa e soberania nacional. A intenção parece-me clara: estar pronta para um conflito de grandes proporções..A título de comparação menciono o Japão. Tem um PIB duas vezes superior ao da Rússia e está localizado numa zona geopolítica incomparavelmente perigosa e imprevisível em termos de segurança. Deverá aprovar, para o mesmo período, um orçamento de defesa inferior a 60 mil milhões de dólares..E não ouso mencionar os números chineses, que são absolutamente opacos. Convém, no entanto, ter presente que a China e a Rússia estão a reforçar a sua aliança militar. Partilham uma visão semelhante das rivalidades com o Ocidente. Oficialmente, Beijing tem programado um orçamento militar de 232 mil milhões de dólares. A realidade, porém, segundo os especialistas, deve situar-se perto dos 700 mil milhões, um valor cada vez mais próximo do norte-americano..Os EUA são, como de costume, um caso à parte, com uma proposta orçamental da ordem dos 850 mil milhões de dólares em discussão no Congresso..Nós, europeus, temos de compreender que a Rússia é a nossa principal ameaça. Vladimir Putin está a transformar o sector produtivo do seu país numa economia de guerra. Só não entende isto quem não quer ou tem medo de refletir sobre o futuro. Ou os ingénuos, que não percebem como funciona a cabeça de um ditador. Um ditador do tipo Putin é um louco que se vê como um fantasista iluminado, alguém que acredita que foi posto na terra para levar a cabo uma missão histórica, que mais não é que uma colossal ilusão..Num contexto destes, a situação à volta de Israel não pode ser uma prioridade para os países europeus. Isso, apesar de reconhecermos a gravidade crescente dos conflitos em curso na região, os riscos e os custos humanos, e a necessidade de fazer respeitar a lei internacional e as resoluções da Nações Unidas. Essa é uma área geopolítica que nos é relativamente distante e secundária. Cabe ao Conselho de Segurança da ONU, em particular aos EUA, e aos países da região, encontrar uma solução que respeite a soberania de Israel, lado a lado e em paz com um Estado independente da Palestina e que promova a cooperação regional e os direitos humanos das populações. Diversamente, as preocupações para a Europa são as nossas fronteiras, a proteção das nossas democracias, o reforço da nossa integração enquanto espaço de valores comuns e de economias prósperas. E, ao nível global, a promoção da solidariedade na resolução dos grandes desafios comuns à humanidade..Estas são as mensagens que a UE como um todo, e os governos europeus, devem fazer chegar às capitais dos países do Médio Oriente, a Washington e à ONU em Nova Iorque. Trata-se de mensagens políticas. Devem ser acompanhadas por exigências inequívocas de respeito pelas reiteradas resoluções da comunidade internacional, expressas no lugar apropriado que é a Assembleia Geral da ONU. Essa tomada de posição inclui uma reivindicação clara: que se dê a devida consideração ao papel e à autoridade moral e política do Secretário-Geral da ONU. Caso contrário, estaremos a abrir as portas à via que levará à ruína do diálogo internacional e à proliferação de instituições com uma autoridade política duvidosa. Uma via para um mundo fragmentado e incapaz de responder aos desafios globais..Devemos igualmente condenar todos os atos de terrorismo, todas as agressões, a cultura do ódio, a retórica do menosprezo por outras culturas e a prática sistemática de retaliações. E denunciar as falsas narrativas, que apenas têm como objetivo criar espaço para logros políticos e novos patamares de violência. Muito do que aconteceu durante a semana teve como objetivo mostrar força, aumentar as tensões e preparar a opinião internacional para novas escaladas, incluindo uma possível intervenção contra instalações vitais nos países que não têm os EUA como aliados. Tudo isto deve ser especificamente denunciado, com toda a clareza, coragem e veemência.