De excomungado a reformador

No terceiro dia do ano, completou-se meio milénio sobre a excomunhão de Lutero (1483-1546), num processo de golpe e contragolpe, entre o jovem clérigo alemão e o papado, iniciado em 1517 com o ataque público e publicado do primeiro às Indulgências. Prosseguindo com a total pulverização do mapa teológico-político da Europa, na sequência da transformação desse protesto individual em Reforma Protestante (escrevi sobre isso no DN de 01.11.2017). O triângulo do universalismo medieval (uma religião, um Papa, um Imperador) há muito que escondia um vulcão à espera de entrar em erupção. Em 1511, Erasmo (1466-1536) tinha oferecido a um círculo restrito e ilustrado de leitores, o Elogio da Loucura, em que a natureza "humana, demasiado humana" do clero cristão era denunciada com mordacidade.

No século anterior, não faltaram homens de fé que, com ideias e atos, tentaram mudar a vida no interior da Igreja. Em Itália, Savonarola (1452-1498) tinha chegado até a governar Florença, numa tumultuosa teocracia que terminou com o seu corpo a ser devorado pelo fogo na Piazza della Signoria. Entre a Boémia e a Alemanha, Jan Huss (1369-1415) anteciparia algumas das teses que serão postas em prática por Lutero, como é o caso do acesso direto dos crentes à palavra revelada. Huss seria queimado vivo por heresia, tendo essa crueldade provocado um longo período de violência, conhecido como as Guerras Hussitas (1419-1434). Recuando ainda mais, atravessando o canal da Mancha, encontramos John Wycliff (1328-1384), a quem se deve o primeiro esforço de tradução da Bíblia para uma língua europeia vernacular (antecipando em mais de um século a Bíblia alemã de Lutero). Embora tivesse morte natural, os ossos de Wycliff seriam queimados em 1428, por ordem papal, depois de ter sido considerado herético.

O que explica o sucesso de Lutero, numa empresa em que tantos antes dele falharam? Talvez a melhor resposta se encontre na distinção que Hegel estabelece entre o "herói" e o "aventureiro". O segundo até pode ser mais ousado e corajoso do que o primeiro, mas só este se consegue colocar de feição perante os ventos da razão histórica. Na verdade, Lutero não foi tanto aquele que criou uma corrente caudalosa de acontecimentos, mas quem nela conseguiu nadar sem se deixar afogar. Duas condições, relacionadas com a realidade alemã, foram fundamentais para que o excomungado se tivesse transformado no grande reformador. Em primeiro lugar, a prensa móvel de Gutenberg, essa invenção do século anterior, permitiu que a palavra de Lutero se espalhasse mais rapidamente do que a sanha dos seus perseguidores. Em apenas uma década, os monarcas da Escandinávia recrutavam discípulos de Lutero para reformar as suas próprias igrejas. Em segundo lugar, a fragmentação política da Alemanha garantiria a Lutero a proteção dos pequenos e médios príncipes contra o Imperador e o Papa, numa paradoxal cumplicidade entre o medievalismo político e a modernidade teológica. Talvez Erasmo, e não Lutero, tivesse sido o primeiro a antecipar a tempestade das guerras religiosas que devastariam a Europa até 1648, num holocausto cristão que nada fica a dever em crueldade às lutas entre sunitas e xiitas no mundo islâmico. Suprema ironia: em 2021, num planeta ameaçado, a única voz teológico-política capaz de inspirar uma nova Reforma é a de um ancião, vestido de branco, que prega na Basílica de São Pedro, cuja construção foi iniciada em 1506, com o dinheiro das Indulgências..

Professor universitário

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