Ataques à navegação no Mar Vermelho, mais inflação na Europa

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Nas últimas semanas, invocando solidariedade com os palestinos de Gaza , o movimento iemenita Huthi Ansarallah atacou navios de carga “com ligação a Israel”, ao longo da costa de Iémen. Estes ataques criaram enorme incerteza sobre o comércio marítimo no Mar Vermelho e no Golfo de Áden, em especial na zona do Estreito de Bab al-Mandab , por onde passa 40% da carga marítima da Ásia para a Europa.

As principais companhias de transporte marítimo do mundo anunciaram que, enquanto esta situação de insegurança e incerteza se mantiver, vão suspender a utilização da rota do Mar Vermelho e utilizar a rota de circun-navegação de África. Os EUA (e alguns países aliados) anunciaram o estabelecimento de uma missão naval internacional - Operação Prosperity Guardian - para proteger a passagem de navios e permitir retomar a navegação comercial pela área. Mas o recente ataque ao cargueiro Maersk Hangzhou deverá manter a suspensão do trânsito de todos os navios de carga que passam pelo Mar Vermelho.

Tomando como exemplo de destino Roterdão, a utilização da rota através do Cabo da Boa Esperança traduz-se num acréscimo de +3457 milhas náuticas e +9 dias, com os custos adicionais . O aumento dos prémios de seguro de risco de guerra também é relevante, dependendo do tipo de navio, mas com especial incidência em navios-tanque de longo curso (LR) (dezenas de milhares de dólares de custos adicionais para uma viagem de sete dias) .

Os analistas temem que um impasse prolongado no Mar Vermelho possa desencadear aumentos de preços. O aumento dos índices de referência do petróleo bruto terá um efeito em cadeia sobre o gás, enquanto as companhias de transporte marítimo deverão responder a tempos de viagem mais longos e a custos de seguro mais elevados cobrando preços maiores às empresas suas clientes pelo frete marítimo que, por sua vez, os repercutirão nos consumidores.

Os mercados de futuros mostram-nos-ão, em breve, a dimensão desses custos adicionais e os setores mais afetados (ex: combustíveis, produtos alimentares). Parecendo este novo surto inflacionista inevitável, a sua dimensão é incerta, bem como a sua progressão. O que parece claro é que, para além da situação de incerteza gerada por estes acontecimentos, a respetiva pulsão inflacionista provocará a erosão do rendimento disponível das famílias e sustará qualquer veleidade de redução das taxas de juro de referência determinadas pelos bancos centrais. É ainda possível que as tensões geopolíticas na zona do Mar Vermelho e Golfo de Áden se agravem, podendo alastrar ao Golfo Pérsico.

A 16 de dezembro, um porta-voz do Ansarallah disse que o grupo se comprometeu em negociações mediadas por Omã com “partes internacionais” não identificadas sobre as suas operações no Mar Vermelho. Mas a inflexibilidade do governo israelita em relação à guerra em Gaza tem sido aproveitada pelos movimentos controlados pelo Irão (como o Ansarallah) para radicalizar sua posição de “defesa dos palestinos” e encurralar taticamente os sauditas e seus aliados na região. Não é realista esperar que ocorra qualquer acordo. Para além da guerra na Ucrânia, chegou a altura de a Europa e os Europeus perceberem que também esta guerra entre Israel e o Hamas os afeta, e muito.


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