"Não falharam as pessoas.” A frase com que a jornalista Margarida Vaqueiro Lopes terminou um artigo no início da semana deveria ter sido lida ao Presidente da República antes de Marcelo Rebelo de Sousa ter voltado aos tempos de professor universitário, e de comentador televisivo, e à análise crítica da atuação do Governo durante o período de calamidade que o país vive há uma semana devido à passagem da depressão Kristin que arrasou grande parte da zona Centro - nomeadamente a região de Leiria.E o que se foi vendo e ouvindo ao longo destes dias dá razão à citação com que iniciei este texto. Às regiões afetadas foram chegando voluntários de diversos pontos do país que começaram a ajudar a limpar e a tentar arranjar o possível - desde retirar lixo das ruas, colocar lonas nos telhados ou acondicionar comida em sacos para serem entregues a quem viu a sua vida ser transformada em dias de sobrevivência sem luz, água e, até, estradas.Tudo isto contrasta com o triste espetáculo a que fomos assistindo dado por quem tem a responsabilidade política de decidir e aprovar formas de apoiar e de prevenir situações como as que afetaram o país.Além da falta de prevenção - o Instituto Português do Mar e da Atmosfera alertou com antecedência que a depressão se aproximava e que seria perigosa -, houve depois dificuldades em reagir. E quando essa reação surgiu ainda piorou a imagem do Governo: um ministro deixou publicar um vídeo propagandístico onde aparecia ao telefone (diga-se, em abono da verdade, que assim que percebeu isso mandou retirá-lo); um outro que terá levado um grupo de militares a um determinado ponto onde fez uma ação (de campanha?) e depois, quando terminou, o cenário foi retirado - acusaram os moradores na zona e não foram desmentidos. Aliás, ouvi um desses habitantes a dizer para um canal de televisão: “Ajuda? Só se for dos passarinhos que estavam com fome.”Acrescentemos à lista a ministra da Administração Interna que chegou a Leiria e, entre outras frases, disse: “Tudo isto é uma aprendizagem.” Quem assistiu viu a expressão do presidente da Câmara... Aliás, Maria Lúcia Amaral teve companhia do ministro da Coesão numa outra tese: o Governo desconhecia o que correu mal no atraso para a disponibilização de meios de ajuda para o terreno.Por tudo isto as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa ontem, em Pedrógão Grande, podem ser consideradas uma avaliação negativa do Governo: “As pessoas ainda não perceberam o que aconteceu aqui, com 80% destruído”; “principalmente os que estão mais longe”; “As medidas têm de sair do papel e ser explicadas às pessoas. As pessoas comuns não as percebem. Para elas são politiquês.”Ouviram o recado? Editor executivo do Diário de Notícias