‘America First’: a obsessão estratégica que veio para ficar

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Para entender as atuais obsessões norte-americanas temos de recuar um pouco no tempo, até à Queda do Muro de Berlim, em 1989. Muitos dirigentes, na altura, viram-no como a constatação do fim de um modelo alternativo à democracia liberal e à globalização. Houve até quem, com exagero, decretasse o fim da História. Como se viu, não foi.

A China, regime que, desde a morte de Mao Tsé-Tung, junta dois sistemas, liberdade económica e absoluta ausência de liberdade política - um capitalismo estalinista, se é que o podemos formular assim - mostrou uma enorme resiliência. E destruiu por completo a premissa de muitos, então, de que a liberdade económica leva à liberdade política. Ainda mais agora, com Xi Jinping, que insiste em lembrar que “o partido está acima de tudo.”

Quanto à Rússia, depois de um ensaio democrático fracassado, as rédeas do poder foram quase todas parar às mãos de Vladimir Putin. E se o país tem um peso económico relativo, o novo czar soube usar o enorme arsenal militar russo para se afirmar incontornável na cena internacional.

As dinâmicas decorrentes da globalização nestas últimas décadas permitiram ainda que uma série de médias potências surgissem: Brasil, Índia, Indonésia, Coreia do Sul, etc. No G20 ou nos BRICS, procuram ter uma palavra a dizer nos destinos do mundo. Ainda assim, incapazes de se imiscuir num “recreio” onde apenas Rússia, China e EUA têm lugar, e onde toleram (mal) uma União Europeia, alvo de diversas formas de bullying por parte de uns e outros, muito por causa das suas dependências de uns e outros.

O momento em que tudo começa verdadeiramente a mudar surge com a pandemia. As dependências globais, assentes na ideia de uma globalização feliz para todos, ruíram de forma brutal: medicamentos fabricados na Índia ou máscaras e ventiladores produzidos na China faltavam, em plena urgência sanitária, a muitos outros países. A partir daí inicia-se uma inflexão que conduz ao paradoxo da atual Administração norte-americana.

Segundo a sua atual doutrina, as fábricas precisam de estar em solo nacional; o acesso ao mercado americano passa por investir... na economia dos Estados Unidos. A globalização deixou de fazer sentido, eles que foram os seus principais advogados. É certo que a lógica do extrativismo capitalista se mantém: a ideia (errada) de que o planeta dispõe de recursos inesgotáveis para serem colocados ao serviço de um ser humano reduzido a mero consumidor, da moda aos gadgets eletrónicos.

A lógica de Washington é, assim, concentrar nas suas mãos o máximo de recursos possível sem ter de depender de ninguém. Daí a tentação de controlar todo o continente: da Venezuela, pelo petróleo, ao Panamá, pelo controlo da navegação; passando pela Gronelândia, vista simultaneamente como barreira de proteção militar, chave para o controlo do Ártico, e território rico em terras raras essenciais às tecnologias contemporâneas; sem esquecer o Canadá, um velho sonho americano desde a independência.

Os parceiros históricos de Washington noutras geografias, sobretudo os europeus, pouca relevância têm, a não ser como potenciais obstáculos às tentativas de Pequim e Moscovo de estenderem o seu poder, sendo, por isso, meramente instrumentais.

Este admirável mundo novo trumpiano assenta, é certo, no ego narcisista do atual presidente norte-americano, mas as ideias que o sustentam vêm de ideólogos bem identificados. É a lógica da lei do mais forte aplicada aos destinos do mundo; e, em paralelo, uma certa lei do mais forte também no plano interno, com sinais evidentes de iliberalismo político e até de deriva autocrática.

Compreender esta América é a melhor forma de lidar com ela. Até porque é pouco provável que, mesmo depois desta Administração, esta linha estratégica seja profundamente alterada, independentemente de quem lhe venha a suceder.

O “America First” veio para ficar.

Jornalista

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