A tragédia torna mais visível a natureza das coisas

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Nos últimos anos, muito nos aconteceu. Incêndios, pandemias, tempestades com nomes de pessoas, geralmente de mulheres, que trazem devastação e morte. Ponho tudo no mesmo saco para afirmar uma convicção que é, também, um lugar-comum: por muito que façamos, por muito bons que consigamos ser, por muito confortáveis que estejamos, dependemos de fatores que não controlamos e nos transcendem.

Nos últimos dias, algumas zonas do país, com particular destaque para o Centro e para a zona Oeste, foram brutalmente destruídas “pela fúria da natureza”. Ficará para a história como Kristin e teve o poder de desviar as atenções da campanha eleitoral - atores políticos, económicos e sociais multiplicaram-se em apelos, soluções e exibiram eficácia, mas também incúria.

Neste espaço tenho tentado ser porta-voz da importância do cooperativismo. Do estar perto das populações, do sermos empáticos e consequentes no modo como defendemos e concretizamos a ideia de proximidade. Tenho dado exemplos, escrito a partir de vários temas, procurado decifrar as palavras ditas pelas pessoas que nos iluminam - como na passada semana quando escrevi acerca do primeiro-ministro canadiano e da sua capacidade de nos fazer acreditar que existe um futuro se soubermos cooperar.

A tempestade atingiu Torres Vedras e os concelhos limítrofes. E orgulho-me por a nossa Caixa Agrícola ter dito presente antes de quase todas as instituições financeiras se terem pronunciado.

Para mim, para nós, era decisivo ser o porto de abrigo da economia local, dos empresários e do tecido social. Uma coisa são as ideias, outra os atos. As ideias sem atos, são inconsequentes.

Os atos sem ideias, são tiros no escuro.

No final da semana passada, horas após a tragédia ter varrido o concelho, anunciámos a abertura de uma linha de crédito de dez milhões, estando a funcionar uma linha telefónica dedicada a estudar financiamentos à reconstrução, investimento e tesouraria das empresas afetadas.

Alargámos o apoio a empresas de fora do concelho, desde que tenham fortes relações com Torres Vedras, como clientes ou parceiros de negócios com empresas locais.

Muitos, como o ministro da Agricultura - eng.º José Manuel Fernandes - elogiaram a Caixa de Torres Vedras, o que agradeço. Porém, esta é a nossa obrigação, a verdadeira razão de existirem caixas agrícolas.

Não queremos ser sociedades anónimas, queremos ser precisamente o que nascemos para ser. Não faria sentido a nossa instituição, que tem dos melhores rácios financeiros em Portugal, não fazer a sua parte.

Temos trabalhado diariamente na procura de soluções, colaborando com a Câmara de Torres Vedras, liderada por Sérgio Galvão, que, sem qualquer dúvida, resolverá os problemas, alguns dramáticos, que foram consequência direta de uma das madrugadas mais pesadas do nosso tempo. Reunimos na câmara com pessoas que quiseram ser parte da solução, gente capaz de se colocar ao serviço do bem comum. Podia citar muitos mais, mas que fique escrito, para memória futura, a enorme colaboração do dr. José Bernardo Nunes, vice-presidente da CCDR de Lisboa e Vale do Tejo; do eng.º Firmino Cordeiro, diretor-geral da Associação de Jovens Agricultores; do eng.º Miguel Guisado da CAP e do eng.º Sérgio Ferreira, da AIHO.

Temos a vantagem da experiência no terreno. Conhecemos as pessoas e as suas dores - as dores da comunidade são as nossas.

Em 2009, com a colaboração do professor António Serrano, na altura ministro da Agricultura, estivemos na primeira linha no apoio a empresas e pessoas que, a uns dias do Natal, tiveram de lidar com uma intempérie poucas vezes vista.

Por forma a desbloquear fundos comunitários negociados pelo então ministro, hoje cidadão honorário de Torre Vedras, prestámos 22 milhões de euros de garantias bancárias que mobilizaram 50 milhões de euros todos aplicados na reconstrução do setor.

A fiscalização dos capitais ficou a cargo da Caixa Agrícola, modernizando todo o setor hortofrutícola, hoje um dos mais produtivos do país.

Volto então ao início.

Por vezes, não controlamos nada. Mas podemos esperar o melhor e prepararmo-nos para o pior. Sabendo que aquilo que nos move, a essência do que somos, representa o melhor do nosso património. Vale a pena a empatia, a proximidade, o sermos para os outros, o estarmos no mesmo barco por sabermos que juntos somos mais fortes.

Aqui, nos vários setores, ninguém desiste de Torres Vedras e vamos lutar contra os danos do Leonardo e do que mais vier.

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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