A NATO no Magrebe/Sahel (depuração)

Na continuação do artigo que publicámos esta semana sob o título NATO no Magrebe/sahel: uma questão de sobrevivência, uma possibilidade, e sendo públicos o acordado e decidido na Cimeira NATO de Madrid, que terminou ontem e que se pode resumir à aprovação das candidaturas da Finlândia e da Suécia e a um novo conceito estratégico, que define a Rússia como "a maior e mais directa ameaça à segurança da Aliança Atlântica", quando no conceito estratégico anterior se definia (a Rússia) enquanto parceiro estratégico, termina com o limbo da indefinição do inimigo objectivo, desde o fim da guerra fria. Desde 1991 até ontem o Ocidente/NATO andou meio perdido no "nevoeiro do consumo", desde o imperativo de estancar o tribalismo eslavo, sem aspas, na ex-Jugoslávia (1991-2001), passando pela "guerra humanitária de Clinton" (Somália, 1993), até à intervenção humanitária, também sem aspas, na Líbia (2011). A Rússia, para muitos "economicamente falida e militarmente obsoleta", como respondeu um colega de curso num exame oral, com chumbo garantido dada a leitura, volta a recentrar o já esquecido e quase científico poder centrípeto da hinterlândia. Moscovo, no centro da Eurásia (a maior massa de terra do planeta), com mapas nas paredes das salas de aula que não deixam dúvidas sobre a sua centralidade, nunca escondeu a sua vontade e poder de sucção da periferia. Por isso mesmo veem no Cabo da Roca a "cabeça da Europa" e não as "nádegas", como nós!

O momento é histórico porque nos faz regressar ao passado. Está tudo nas dissertações dos cursos de Estudos Soviéticos e de Estudos Americanos, apenas sendo necessário substituir "Rússia comunista" por "Nova Rússia" ou "Novo Império". Na mesma medida, voltaremos às políticas de contenção de uma Rússia não-comunista e a Kennedy também. A sua breve presidência (1961-1963), viu na "doutrina Kennedy" uma política interventiva no exterior, militar se necessário, na tentativa de contenção da expansão comunista, o que levou os Estados Unidos da América a investirem como nunca antes o tinham feito no Vietname. O objectivo político era impedir que o Sudeste asiático fosse caindo para o comunismo chinês, na senda da Guerra da Coreia (1950-1953), que a divide ao meio até hoje.

A Rússia, para muitos "economicamente falida e militarmente obsoleta" [...] volta a recentrar o já esquecido e quase científico poder centrípeto da hinterlândia.

Ora este cenário coloca-se agora no Magrebe e no Sahel, dado o investimento e avanços russos neste grande bloco do Suez a Gibraltar, de Trípoli a Niamei. Com a Líbia permanentemente no limbo da guerra, com Turquia e Itália, NATO portanto, de um lado e Rússia do outro, até será lógico um refrear do conflito na Ucrânia, tendo na divisão da Líbia o cenário proxy ideal para o capítulo seguinte. Os falhanços da França no Sahel, sobretudo fruto do regresso das fardas e das botas do ex-colonizador a território libertado e soberano, fizeram os locais correr para os braços russos no Mali e no Burkina Faso, já que são considerados como elementos neutros e sem histórico regional. Por outro lado, a disputa sahraoui, demasiado próxima da Europa, integra um aliado histórico da Rússia, a Argélia, o principal cliente magrebino de armamento e doutrina russa. Este "conflito em surdina" tripartido entre Marrocos, POLISARIO e Argélia, vai escalar e juntamente com a Líbia farão parte da equação para a paz, ou para a guerra generalizada no Mediterrâneo sul.

A NATO ao definir a Rússia como inimigo, coloca-a na linha de todas as frentes. Se se concentra agora e apenas na frente ucraniana, sobretudo para não perdermos os 13.º e 14.º mês, chegará o momento, após a anunciada reforma das indústrias militares, que estará em condições de flectir o músculo fora da Europa, porque a isso será obrigada. Desta forma se justifica ir para a guerra, para assegurar a paz!

Politólogo/arabista
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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