NATO no Magrebe/Sahel: uma questão de sobrevivência, uma possibilidade

Há dois momentos, no passado recente, que dão chão a esta possibilidade. Primeiro, em dezembro de 2021, há escassos sete meses, o presidente (PR) francês Emmanuel Macron, declarava a "morte cerebral" da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Antes disso, em setembro de 2021 a diplomacia francesa enfrentava o fracasso de um negócio multimilionário de venda de submarinos não nucleares à Austrália, que num golpe de asa opta por comprometer-se com os Estados Unidos e com a Grã-Bretanha e faz ainda a França passar pelo embaraço da criação da AUKUS, uma aliança militar entre (Au)strália, United (K)ingdom e (U)nited (S)tates, uma "mini-nato do sudeste asiático" para conter a China.

Certamente que no decorrer destes acontecimentos, negócio falhado, sentimento de traição por aliados que se organizam em segredo para constituírem uma aliança exclusivista de uma parte interessada, Macron deveria projetar nesta altura dar um murro na mesa logo a abrir a Cimeira Ordinária da NATO, em Madrid a 29 e 30 de junho, com a seguinte retaliação, "ou a OTAN (como dizem os franceses) estende a sua área operacional até à Linha do Equador, assumindo a plenitude do Atlântico Norte, ou nós retiramo-nos e vamo-nos concentrar na constituição do Exército Único Europeu". Ora isto é "um suponhamos", mas facto é que o último trimestre de 2021, em virtude de tudo isto, viu um crescendo de confrontação verbal entre Macron e Trump, já ex-PR, numa habitual mas também feroz (muito culpa das redes sociais) disputa de liderança e protagonismo entre franceses e anglófonos no seio da NATO/OTAN.

A guerra da Ucrânia é que não estava no programa, obrigando a organização a serrar fileiras e mostrar unidade perante um inimigo bem definido, não havia/há dúvidas sobre isso! Mesmo assim há fatores que nos levam a considerar esta hipótese de a NATO se esticar em definitivo até à Linha do Equador. Porquê?

Primeiro, decorre dos próprios falhanços franceses no Sahel, com o anúncio do fim da Operação Barkhane (agosto 2021), os golpes militares que não conseguiu evitar no Mali (agosto 2020 e nove meses depois em maio de 2021, o chamado "golpe dentro do Golpe"). Estes golpes militares, tiveram sempre os mesmos atores, num período de rutura com a França e de alinhamento com a Rússia. Depois foi o golpe no Burkina Faso, (janeiro de 2022, o primeiro golpe militar do ano em África e terceiro na vizinhança em menos de dois anos), já que em setembro de 2021 também a República da Guiné, vulgo Conakri, viu os militares tomarem o comando dos acontecimentos. Estes falhanços franceses decorrem muito de uma vontade de o ex-colonizado correr novamente com este elemento (aquele que consideram sempre enquanto colonizador) e substitui-lo por outro de maior peso e provocador, enquanto prova de que o africano tem alternativas e também sabe das regras da "reciprocidade de ocasião". Esta região de África, o Sahel Ocidental, está a cair nos braços dos russos, o que nos remete para um segundo elemento validador da possibilidade de um alargamento da área operacional da NATO.

Segundo, aplicadas as sanções à Rússia, aos oligarcas e aos membros próximos da família Putin, há que analisar as formas de como fazer mossa junto dos aliados de Moscovo. Por isso mesmo a Espanha alterou a sua posição face ao Sara Ocidental, saindo da neutralidade e apoiando a posição marroquina face à Argélia, aliado fiel da União Soviética e da "nova Rússia", porta de entrada desta no Magrebe, na mesma proporção que o Irão lhes abre o Médio Oriente. É neste grande quadro que deve ser interpretada a mudança de posição de Espanha. O conflito saraui irá em crescendo ao longo deste Verão e da sorte da guerra na Ucrânia e marcará a agenda securitária do trinómio Magrebe/Sahel/África Ocidental nos próximos anos. Nesse sentido, não será irracional alargar os horizontes, já que a Europa necessita de definir cada vez mais a sul a sua própria segurança e a NATO precisa de sacudir o "trauma Líbia 2011".

A tensão crescente na Líbia entre o PR Mohamed al-Menfi e o primeiro-ministro (PM) Abdelhamid Dbeibah, projetadas nas diferentes fações no seio do chamado "Cartel de Trípoli", quem decide da paz e da guerra e que "perfuma" o ambiente presente com um cheiro de potencial escalada, não em questão de dias, mas de horas, tão curto está o pavio! Ou seja, em terceiro lugar a Líbia termina neste início de Verão um breve momento de calmia, para voltar em breve ao confronto direto, sendo que um dos contendores é membro da NATO, a Turquia, que combate precisamente a Rússia. Mesmo que a guerra termine na Ucrânia, a Líbia apresenta-se como o cenário proxy perfeito, para a continuação deste "braço-de-ferro-armado" entre NATO e Rússia.

Em quarto lugar, o vazio deixado pelos franceses no Sahel fez aumentar o número de ataques terroristas na fronteira tripartida (Mali, Burkina e Níger) e já no norte do Togo e do Benim, demonstrando uma descida para sul, dos grupos jihadistas, na procura das costas do Golfo da Guiné, para novas rotas de aprovisionamento, fuga e entrada na hinterlândia, que é o Sahel.

Precisamente, Golfo da Guiné, a quinta razão para o alargamento a sul. O Golfo da Guiné apresenta um elevado nível de pirataria, sendo uma rota privilegiada para o abastecimento da Europa e Américas. O comum dos cidadãos não se apercebe disto porque Hollywood privilegiou a pirataria ao largo da Somália, com um filme e não ao largo da Nigéria. Por razão da segurança marítima, faz todo o sentido que o trinómio Magrebe/Sahel/África Ocidental mais o Golfo da Guiné, fiquem sob o "escudo protetor" da NATO, tal são regiões vitais na estabilidade local, para conforto europeu. Trata-se de uma questão de sobrevivência da Europa, dentro dos atuais padrões de conforto e segurança, mas também de sobrevivência para a própria NATO, já que o atual momento de rutura, obriga a que seja entendido o imperativo das grandes mudanças e que são agora, na mesma medida em que se aproxima novo momento de revolução tecnológica, já que as guerras alavancam sempre o génio humano, no absurdo da condição humana!

Uma sexta razão, decorre da própria gestão de imagem da NATO, já que esta será a Cimeira de aprovação, ou não, da Finlândia e Suécia enquanto candidatos à integração. A Turquia, que à última da hora poderá mudar de posição, dependendo da "barganha" que decorrerá até ao momento das votações, mantém uma posição "irrevogável" para vetar as propostas de candidatura da Finlândia e da Suécia. Ora isto a acontecer será uma derrota de difícil gestão junto das opiniões públicas, "quem manda" em Democracia. Precavendo-se de tal cenário, fácil e logicamente o secretário-geral Jens Stoltenberg apresentará nos temas a discutir o alargamento operacional até ao Equador. Com duas votações de peso, perdendo uma não perderá a outra, saindo sempre de cara limpa! É possível que isto venha a acontecer, como também é possível que seja o seguinte. Um alargamento do foco no trinómio Magrebe/Sahel/África Ocidental + Golfo da Guiné, através da intelligence mais tecnológica, dos satélites, o que aliás já acontece, mas passando a ter uma partilha mais horizontal. Uma maior colaboração e cooperação com a União Europeia (UE), englobando também a partilha de custos e de investimentos.

Não acontecer nada disto, significará uma leitura parcial da globalidade dos acontecimentos, ou um sintoma de que os cofres começam a ficar vazios, a principal razão que nos indica que a NATO poderá alargar as vistas, mas não avançar para alargamentos oficiais, que incluam custos, preferindo concentrar estes no cenário principal, a Ucrânia, tentando também impedir que a guerra tome rumos que possam criar fissuras no seio da União Europeia, que num curto/médio prazo levem à desagregação desta Federação de Estados.

Sobre a Ucrânia e a UE/NATO, considerar também esta possibilidade. A paz será obrigatoriamente assinada com concessão de território ucraniano à Rússia. Para compensar tal facto, a Ucrânia associa-se à Polónia, ambos enquanto confederação e a Ucrânia passa automaticamente a pertencer à UE e à NATO! Reforçaria isto a UE, ou "criaria bicho" que rapidamente alimentaria uma cavalgante gangrena a partir do centro para a periferia da União?

Todos os cenários são possíveis, incluindo não ler o momento atual, com toda a dimensão que o mesmo incorpora e que já define o presente e vislumbra o futuro!

Politólogo/Arabista
www.maghreb-machrek.pt

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