A Europa não pode mostrar qualquer hesitação na cena internacional. Sobretudo agora, quando a paisagem global se assemelha a um campo de forças em rota de colisão. Durante demasiado tempo permitiu-se que a nossa visão estratégica fosse dominada por duas obsessões: a crédula subordinação ao amparo dos EUA e o receio de uma avalanche destruidora vinda do lado da Rússia. Em ambos os casos, a Europa acabou por perder soberania e credibilidade. A prioridade é recuperá-las.Vivemos hoje num contexto de hostilidades vindas de vários azimutes. É vital enfrentá-las. A força externa, bem como a imagem da União Europeia são um reflexo direto da nossa coesão interna. Nos tempos atuais, é fundamental mostrar respeito pelos demais, advogar o equilíbrio e, ao mesmo tempo, projetar poder. A coesão interna é, por isso, no meu entender, a preocupação número um.Para a conseguir, é imperativo reforçar a complementaridade europeia através de medidas concretas: primeiro, pela harmonização das principais dimensões políticas, impedindo assim que a fragmentação interna seja explorada pela competição proveniente do exterior; segundo, pelo fortalecimento da resiliência democrática contra a desinformação, estabelecendo um protocolo eficaz de resposta a ataques híbridos e às notícias falsas que visem dividir as nossas sociedades; e terceiro, pelo investimento massivo em infraestruturas integradas nas áreas da energia e no domínio digital, garantindo que nenhum Estado-membro se torne um alvo vulnerável à chantagem de terceiros. Uma Europa que não for sólida no seu núcleo central nunca poderá ser soberana nas suas fronteiras, nem jogar um papel geopolítico de peso. Isto inclui o fortalecimento da identidade comum, embora reconhecendo a diversidade cultural e nacional, e o envolvimento ativo dos cidadãos e das suas estruturas representativas.Por independência soberana não se deve entender um isolacionismo defensivo, mas sim a capacidade de afirmar e defender os nossos interesses estratégicos. Trata-se de uma soberania multidimensional: energética, tecnológica, cultural, política e militar. Ser soberano significa que as decisões de Bruxelas e outras expressam as nossas prioridades comuns e os nossos parceiros são escolhidos com base na reciprocidade e nunca na submissão.Não podemos esquecer a China, que faz parte do núcleo das superpotências. A relação com a China exige um realismo desprovido de ingenuidade. A orientação a tomar deve ser definida em Bruxelas. O objetivo consiste na redução do risco, mas sem ruturas, protegendo setores estratégicos e garantindo que as relações são condicionadas por regras mutuamente aceites.Simultaneamente, a soberania conquista-se falando com todos. É imperativo que a Europa, como um todo, fale com Moscovo tanto quanto fala com outros. Manter canais abertos com o Kremlin não é mostra de fraqueza, mas um reconhecimento realista da nossa localização geográfica. Uma conversa produtiva com o Kremlin é praticamente impossível. Para D. Quixote, seria como convidar uma serpente para a nossa mesa e chamar a isso diplomacia. Penso, no entanto, que a Europa democrática, no seu conjunto, repito, deve tentar estabelecer um diálogo.A Rússia está transformada pelos seus dirigentes num mau vizinho, não inspira confiança, bem antes pelo contrário, mas vive na porta ao lado. O primeiro passo será fazer ver a Moscovo que o prolongamento da agressão contra a Ucrânia leva à ruína de todos, a Rússia em primeiro lugar. Sun Tzu, na sua obra famosa A Arte da Guerra, sublinhou que “nunca houve uma guerra prolongada da qual um país tenha saído beneficiado”. Quando a vitória não é rápida e decisiva, a melhor opção para o agressor é retirar-se.Na nova arquitetura, a NATO tem de ultrapassar a dependência unidirecional. Alinhando com a visão que Mark Rutte tem impresso à Aliança neste início do seu mandato, a Europa deve procurar construir um pilar europeu de Defesa operacionalmente autónomo. Como o secretário-geral tem reiterado, “a segurança europeia não pode continuar a ser um produto de importação”. Reformar a NATO significa que a Europa assume a responsabilidade primária pela estabilidade do nosso continente.No seguimento de Davos 2026 e da próxima Conferência de Munique, de 13 a 15 de fevereiro, e no processo de reorganização das Nações Unidas (UN80), a Europa precisa de se assumir como a arquiteta de um multilateralismo revigorado e eficaz. A mensagem deve ser simples e direta: temos de restabelecer a confiança entre os Estados. Na reforma da ONU, que é mais urgente do que nunca, a Europa deve liderar a transição para um sistema que reflita a realidade contemporânea, defendendo um Conselho de Segurança alargado onde a voz do Sul Global e dos países com peso regional seja institucionalizada, e o poder de veto não seja um instrumento de paralisia.Este esforço de reforma multilateral corre agora o risco de ser minado por propostas transacionais e excludentes, como o inacreditável “Conselho da Paz” (Board of Peace) sugerido pela Administração norte-americana. Esta proposta, que pretende substituir a diplomacia coletiva por um diretório ao serviço dos interesses pessoais de Donald J. Trump, constitui uma ambição inaceitável. Ao tentar contornar as instituições internacionais, o “Board of Peace” procura impor uma ordem mercantilista, assente num ego descomunal e num conceito novecentista de império, que ignora os direitos e a soberania dos Estados. Numa palavra, é uma aberração.A estabilidade e a influência geopolítica da Europa não virão apenas das armas, nem da modernidade das nossas economias. Resultarão, também, da nossa capacidade de ombrear a todos os níveis com aqueles que nos querem subjugar, da força moral que colocarmos na defesa dos valores universais e das pontes que soubermos estabelecer com os regimes democráticos existentes em cada região do globo. Conselheiro em Segurança Internacional.Ex-secretário-geral-adjunto da ONU