A escolha entre a direita carismática e a esquerda tranquila

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André Ventura e António José Seguro serão, provavelmente, os dois candidatos que vão passar à segunda volta das legislativas, a fazer fé na maioria das sondagens que têm sido divulgadas, incluindo o Barómetro DN/Aximage de janeiro. A confirmar-se esta previsão, a escolha na segunda volta será entre dois candidatos que se encontram nos antípodas tanto a nível ideológico como de personalidade.

Ventura é o candidato antissistema por excelência, dotado de forte carisma e capacidade oratória. As concorridas arruadas da sua campanha confirmaram o seu poder de atração junto de grande parte do eleitorado. Para Ventura, mais do que para a Presidência da República, estas eleições serão para a presidência da direita portuguesa. Na segunda volta, se o adversário for Seguro, o líder do Chega poderá contar com os votos de eleitores de direita vindos dos campos de Cotrim ou, até, Marques Mendes. A ideia de que o líder do Chega não tem hipóteses de vencer à segunda volta, devido à sua elevada taxa de rejeição, poderá ser mais wishful thinking do que realidade.

Seguro, por seu lado, é um político discreto, que não é conhecido por levantar ondas, mas que revelou sentido de Estado e eficácia ao longo da campanha. Focou-se no essencial, demonstrou compreender qual o papel de um Presidente da República e, sobretudo, não entrou em ataques pessoais. No debate a 11, enquanto Gouveia e Melo e Marques Mendes trocavam farpas, Seguro recusou entrar na contenda mesmo quando diretamente visado por um torpedo do almirante, com o argumento de que era preciso “respeitar os portugueses”.

O sangue-frio de Seguro foi, provavelmente, a grande surpresa desta campanha, além da sua própria passagem à segunda volta, com possibilidades reais de vencer as eleições. Soube transformar em vantagens algumas características pessoais que alguns lhe apontavam como defeitos. Como Miterrand em 1981, que foi eleito com o slogan “A força tranquila”, Seguro tem boas hipóteses de vencer estas eleições. Mas o apoio do PS foi decisivo para o forte crescimento nas sondagens.

Marques Mendes, Cotrim de Figueiredo e Gouveia e Melo arriscam-se, assim, a não passarem à segunda volta. O primeiro porque não conseguiu descolar da imagem de “facilitador” que lhe foi atirada por Gouveia e Melo. O segundo porque se deixou enredar na questão sobre o eventual apoio a Ventura e, claro, devido à acusação de assédio que lhe foi feita por uma antiga assessora (acusação essa que Cotrim nega). O terceiro porque, não tendo experiência política, se expôs em demasiada.

Os maiores erros de Gouveia e Melo foram, provavelmente, o facto de, por um lado, ter anunciado cedo demais a sua candidatura e, por outro, ter participado nos debates a dois. Não sendo político profissional, o almirante poderia ter recusado participar nesses debates, entrando apenas naqueles que contaram com a participação dos 11 candidatos. Poderia ter falado menos e, assim, teria conseguido manter a aura de mistério que o acompanhava desde o seu bem-sucedido papel no combate à pandemia de covid-19. E, sobretudo, não se percebe o que ganhou exatamente ao atacar Marques Mendes.

Diretor do Diário de Notícias

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