A arte continuará a salvar a democracia

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Quando começamos a ver os livros a desaparecer das prateleiras, o apoio às artes a desaparecer dos Orçamentos do Estado e a cultura a ser relegada para um plano de atividade económica, sabemos que quem está no poder tem medo. Afinal, a mesma música, peça de teatro ou livro que parecem irrelevantes quando comparados com a geração de riqueza da indústria, são significativamente relevantes quando se fala de lutar contra regimes totalitários e absolutistas.

Não é por acaso que a Administração norte-americana tem proibido que alguns livros integrem programas escolares, nem foi por acaso que a Administração de Jair Bolsonaro cortou a eito o financiamento às artes no Brasil. Se recuarmos na História, todos nós somos rápidos e assertivos a condenar a destruição de livros na época da Inquisição, a proibição de obras literárias na Rússia ou o lápis azul durante o Estado Novo. A distância ajuda à clareza de espírito. Não fora assim, e garantidamente não deixaríamos de nos indignar mais por aquilo que tem sido a campanha contra os artistas – e a imprensa – pelos movimentos que têm no medo a sua forma de recrutar apoiantes.

A vitória de Wagner Moura nos Globos de Ouro, este domingo, pela sua interpretação no filme “O Agente Secreto”, é também uma vitória da democracia. É o segundo ano seguido que a Hollywood Foreign Press Association destaca o cinema brasileiro, e concretamente aquele que retrata um dos períodos mais negros daquele país, que só em 1985 conseguiu livrar-se da ditadura militar. Numa altura em que o mundo se debate com o crescimento de movimentos de extrema-direita, Moura teve a coragem, como é seu apanágio, de ser concreto e direto na conferência de imprensa que teve lugar após a cerimónia: “De 2018 a 2022, tivemos um presidente de extrema-direita, fascista, no Brasil, que é uma manifestação física dos ecos da ditadura”. E continuou: “Este prémio vai para quem está seguindo seus valores em momentos difíceis”.

Uma peça de teatro nunca é só uma peça de teatro. Um filme nunca é apenas um filme. Um livro não é simplesmente um livro. Uma música não é somente uma música. Cada uma destas – e de outras – formas de expressão são retratos de realidades concretas e são, acima de tudo, formas de luta e de protesto contra sistemas que não funcionam. Se o não fossem, não assustariam tanto quem se encontra no poder. Continuar a ver os filmes que retratam a realidade; ler os livros que nos fazem não esquecer a História e ouvir as músicas que nos obrigam a sentir o impacto dos tempos é, mais do que uma possibilidade, um dever: porque na arte não reside apenas o combate. É ela que nos ilumina, nos dá esperança e nos faz aspirar a um futuro muito mais luminoso do que aquele que agora parece querer impor-se na ordem mundial.

A mais Wagner Mouras, Fernandas Torres e Klebers Mendonça Filhos, que sendo galardoados pela sua arte, também o são pela coragem de não calar os laivos de um passado que ninguém quer reviver

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