Escrevo da Índia, onde vim participar num curioso encontro de escritores que são também diplomatas ou diplomatas que são também escritores. O tema interessa-me vivamente e participarei em duas mesas redondas, uma sobre as nossas visões da Índia (”vislumbres de la India”, escrevia Octavio Paz, porque a Índia é inesgotável, diversa e múltipla), a outra sobre poesia, em diálogo com uma poeta ucraniana.
Chegam-me as notícias de Lisboa e de toda a Europa sobre manifestações de descontentamento dos jovens e eu não posso deixar de ter sobre o assunto uma posição de compreensão e não de condenação sumária. Escrevi sobre esse tema na semana passada, aqui neste jornal e nesta coluna, pelo que não vou repetir-me. Mas assustam-me posições abertamente repressivas, de cegueira e insensibilidade, assumidas por muitos nas redes sociais e não só. É de louvar a posição aberta e honesta assumida por Jorge Moreira da Silva.
Gosto de voltar à Índia, onde tanto aprendi. Acima de tudo, entendi que somos todos humanos e iguais na nossa pobre humanidade de “bichos da terra tão pequenos” (Camões), por estranhas e exóticas que nos pareçam as religiões, ritos e costumes das outras civilizações. Os deuses indianos, berrantemente coloridos, são afinal da família dos deuses gregos e romanos, eles também cheios de cores e de brilhos, que a degradação do tempo veio transformar naquele branco apolíneo que fascinou Winckelmann e que condicionou toda a nossa imagem dos clássicos.
A Índia é uma grande potência e é uma democracia. Há eleições e alternância de partidos no governo. Não é uma democracia social, as desigualdades são bem marcadas e profundas, a situação das mulheres está ainda longe de ser a ideal, mas a verdade é que só em democracia poderia este país, cheio de religiões diferentes, culturas distintas e línguas variadas, encontrar a sua unidade como nação. A religião também aqui tem sido fator de divisões e enfrentamentos, por vezes sangrentos. Afastar a religião da política e não aceitar teocracias será essencial para a subsistência da Índia, como é essencial para qualquer sociedade que se queira democrática.
Economicamente, este país cresce e demograficamente vai ultrapassar a China. O que mais aprendi na Índia foi a riqueza da sua civilização milenar, em paralelo com uma moderna e viva criatividade intelectual, tanto nas tecnologias como nas humanidades. O pensamento acompanha aqui a modernização tecnológica e existe uma abertura cultural de fundo, apesar de alguns momentos menos felizes que possam ocorrer.
O nosso eurocentrismo levou-nos erradamente a considerar as potências emergentes na Ásia como “as oficinas da Europa”, numa curiosa inversão do pacto colonial: nós criávamos, eles apenas produziam. A crise da indústria europeia veio de não saber entender que as potência asiáticas tinham tanta ou mais capacidade criativa do que o chamado Ocidente.
Sofremos hoje as consequências de políticas económicas erradas, que sacrificaram a produção económica e o bem estar social ao jogo das especulações financeiras. Não sei, não sabemos, que futuro será o nosso. Mas não podemos aceitar um mundo ainda mais desumano do que este.
Na semana que vem, voltarei a falar da Índia.